CIêNCIA

China trava updates nos carros e exige botões físicos até 2028

Pequim fecha a porta a truques de software após os testes e impõe comandos físicos para 19 funções. Enquanto isso, a Europa só tira uma estrela no Euro NCAP.

China trava updates nos carros e exige botões físicos até 2028

Na China, os carros inteligentes ganharam tantos menus e updates de software que o regulador decidiu puxar o travão de mão. Quatro ministérios lançaram a 27 de agosto uma campanha de um ano focada na qualidade de construção e conformidade dos veículos conectados, não em novos gadgets digitais. O alvo são marcas que aprovam um carro numa configuração e depois, via atualização remota, o transformam noutra coisa qualquer.

A partir de agora, se o modelo já foi testado e o protótipo está selado, a marca deixa de poder mexer nos parâmetros técnicos por atualização over-the-air. Nada de alterar potência, travagem, comportamento do assistente de condução ou outros pontos sensíveis sem voltar à fila dos testes. O portal CnEVPost detalha que as sanções são administrativas, mas duras: exposição pública, suspensão do catálogo oficial de produtos e proibição de registar novos modelos. Para um construtor que vive de escala, isto vale bem mais do que uma multa simbólica.

O contexto também pesa. O mês anterior foi marcado pelo recorde pouco orgulhoso da China ter ordenado o recall de quatro milhões de carros por causa de puxadores interiores de emergência difíceis de encontrar no acabamento, um caso em que a Tesla teve papel de destaque e que já analisámos quando a China forçou o maior recall da Tesla. Agora, os inspetores vão olhar para estruturas, desempenho em colisão, packs de bateria e segurança elétrica, e ainda cruzar amostras reais com o que as marcas submeteram em papel. É a mensagem clássica: menos show de software, mais carro bem feito.

Em paralelo, chega o golpe aos ecrãs táteis omnipresentes. A nova norma obrigatória GB 4094-2026 determina que 19 funções críticas tenham comandos físicos dedicados. Inclui a seleção de mudanças, os limpa-para-brisas, os quatro piscas e o botão que desliga a assistência à condução. Cada comando tem de ter pelo menos 10 mm quadrados de superfície, posição fixa e funcionar mesmo sem alimentação elétrica. Novos modelos terão de cumprir a partir de julho de 2027 e os já aprovados a partir de janeiro de 2028.

Na Europa o recuo existe, mas é tímido. O protocolo 2026 do Euro NCAP, o programa de avaliação de carros novos, só exige botões físicos para cinco funções: piscas, quatro piscas, buzina, limpa-para-brisas e chamada de emergência. Se não os tiver, o carro perde a classificação máxima de cinco estrelas. É um empurrão suave, não uma linha vermelha. Para o condutor português, que já se habituou a procurar o controlo do ar condicionado num submenu qualquer, isto significa que alguns excessos de interface vão continuar perfeitamente legais.

A jogada chinesa é menos romântica do que parece. Claro que há uma preocupação real com segurança, mas também há um recado às marcas chinesas que correm para encher o tablier de funcionalidades e updates para impressionar exportações para a Europa. Se querem continuar a crescer, têm de provar que sabem fazer o básico: portas que se abrem, baterias seguras, comandos tácteis onde faz sentido e botões onde falhar é inaceitável. Entre a flexibilidade do software e a previsibilidade do hardware, os reguladores começaram finalmente a escolher lado.

Fonte: The Next Web

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