CIêNCIA

Mara quer meter defesa anti-drones num simples mochila-kit militar

A startup de São Francisco levantou 7 milhões de dólares para o Spike, um sistema de interceptores descartáveis contra enxames de drones FPV. A promessa é mobilidade e baixo custo, as dúvidas são quase todas as outras.

Mara quer meter defesa anti-drones num simples mochila-kit militar

Meter um sistema anti-drones dentro de uma mochila deixou de ser argumento de filme de acção e passou a pitch de investimento. A Mara, startup de defesa com sede em São Francisco, levantou 7 milhões de dólares, cerca de 6,5 milhões de euros, para desenvolver o Spike, um sistema pensado para travar enxames de drones FPV (First-Person View) como os que têm feito estragos na frente de guerra na Ucrânia.

O Spike é um kit modular com dois elementos: o Spotter, a unidade de detecção e seguimento, e os Seeker, pequenos interceptores cinéticos. Cada Seeker pesa cerca de 250 g, é lançado de um tubo, atinge perto de 200 km/h e leva inteligência a bordo para encontrar o alvo em voo. A Mara vende isto como contra-peso aos típicos quadcópteros com carga explosiva que hoje são, na prática, artilharia guiada low-cost nas mãos de exércitos e milícias.

A empresa diz que o sistema escala de um kit que cabe numa mochila, pensado para proteger um pelotão, até lançadores montados em viaturas ou usados para criar um “escudo” de vários quilómetros em redor de uma base. Um lançador pode levar até 48 Seekers e ser recarregado em menos de um minuto, segundo a própria Mara. No papel, é uma espécie de bateria anti-aérea de bolso, com munições descartáveis e baratas. Falta saber quão baratas, porque a startup não divulga preços unitários nem alcance efectivo.

Do lado dos sensores, o Spotter combina óptica, som e, opcionalmente, radar de baixa assinatura para operar de dia e de noite, com mau tempo. A empresa reclama testes com o Exército dos EUA, incluindo intercepções em exercícios no Texas e operações do Spotter num veículo blindado na Europa. Mais recentemente, forças ucranianas terão usado o Spotter perto da linha da frente para seguir múltiplos drones FPV. Nada disto é auditoria independente, mas mostra onde a Mara quer estar: no catálogo de compras militares antes que a concorrência ocupe o espaço.

O argumento do CEO, Daniel Kofman, é simples: pequenos drones baratearam o ataque de precisão, a defesa continua concentrada em sistemas caríssimos. O Spike tenta inverter a lógica, criar uma “malha” distribuída de nós baratos que conseguem apontar e disparar em várias direcções. Em teoria, interessa tanto a exércitos como a infra-estruturas críticas civis, de refinarias a aeroportos regionais. Em prática, ficamos com as lacunas: sem dados públicos sobre alcance, taxa de sucesso, custo por intercepção ou riscos de colateral, a avaliação é quase toda marketing.

Para Portugal e resto da Europa, a questão não é se haverá mercado, é quem vai controlar este tipo de tecnologia. Enxames de drones baratos já são uma preocupação séria para forças armadas e para segurança de estádios, portos ou centrais eléctricas. Sistemas portáteis como o Spike tanto podem proteger um comboio de abastecimento como ser reexportados para qualquer conflito menos escrutinado. A Mara já fala em contactos com parceiros militares no Reino Unido, República Checa e Ucrânia. O dinheiro entrou, os protótipos voam, agora começa a parte realmente sensível: transformar “anti-drone na mochila” em linha de produto sem transformar o espaço aéreo em nova zona cinzenta regulatória.

Fonte: The Register

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