LINUX

AROS traz o espírito AmigaOS para o Raspberry Pi de baixo custo

O clone aberto de AmigaOS já arranca em bare metal num Raspberry Pi 3. Uma forma bem mais honesta de reciclar aquele Pi esquecido na gaveta.

AROS traz o espírito AmigaOS para o Raspberry Pi de baixo custo

Há formas piores de usar um Raspberry Pi 3 do que transformá-lo num pseudo-Amiga. O projeto AROS, uma reimplementação totalmente em código aberto de AmigaOS, passou anos a tentar chegar a bare metal em Arm. Agora, as nightly builds incluem imagens que arrancam diretamente em vários modelos de Raspberry Pi, tanto em 32 como em 64 bits.

Na página de builds diárias surgiram dois alvos novos: raspi-aarch64-system, pensado para Raspberry Pi capazes de 64 bits como o Pi 3 e o Pi Zero 2, e raspi-armhf-system para hardware mais antigo baseado em ARMv6. As imagens base têm pouco mais de 100 MB, mas o truque está nos ficheiros contrib: mais de 1 GB comprimido com aplicações, demos, acessórios e ferramentas que dão algum sumo a este clone de AmigaOS em 2026.

O objetivo de correr AROS diretamente em processadores Arm não é novo, está documentado há anos, mas até aqui o sistema corria tipicamente “hospedado” em cima de outro sistema operativo, quase sempre Linux. A diferença agora é que o Raspberry Pi arranca AROS em bare metal, sem camada intermédia. Isso muda o jogo para quem quer mexer num sistema leve, responsivo e muito anos 90, sem o peso de Linux ou Windows em máquinas com 512 MB ou 1 GB de RAM, que é o que a maior parte dos modelos antigos de Pi oferece.

Num PC x86 clássico, AROS sempre foi um peixe pequeno num lago demasiado grande: demasiadas placas gráficas, demasiado hardware exótico, demasiadas combinações impossíveis de cobrir por um sistema operativo experimental mantido por voluntários. A solução histórica era usar distribuições como Icaros Desktop dentro de VMware. O Raspberry Pi é o oposto: poucas variantes de hardware, GPUs e interfaces de rede bem definidas, documentação abundante. Uma alvos simples ajudam um sistema amador a parecer bem mais polido. Para quem já andou a seguir a vaga de mods e cyberdecks à volta do Pi, como o próprio tutorial oficial que contámos na Pixel em Raspberry Pi entra na moda dos cyberdecks, isto encaixa na perfeição.

Há pormenores por limar. O suporte ao Raspberry Pi 4 ainda vai atrás, com som e rede por resolver, o que limita logo metade dos brinquedos que se pode fazer com a máquina. E, embora o repositório do projeto no Github não detalhe grandes marcos recentes, é difícil ignorar o padrão: desde maio registaram-se mais de uma dúzia de commits atribuídos a um tal de Claude Code. A probabilidade de modelos de linguagem grande estarem a dar um empurrão no desenvolvimento é alta. A ironia é simpática, mas também levanta a velha questão de manutenção: código gerado por IA que fica à espera de humanos com tempo e paciência para o cuidar.

Mesmo assim, há aqui uma combinação rara: nostalgia prática. Não é apenas emulação num portátil moderno, é um sistema operativo descendente direto do Amiga a arrancar numa placa de 40€ que cabe atrás do ecrã. Para quem cresceu com Workbench ou sempre teve curiosidade por aquele ambiente estranho que não era nem Windows nem Mac, isto é uma porta de entrada barata. E uma boa desculpa para voltar a ligar um Pi antigo em vez de o deixar a apanhar pó ao lado dos cabos USB que “um dia ainda vão dar jeito”.

Fonte: The Register

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