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Android Pulse instala-se em silêncio e escapa às regras da UE

A nova app fantasma da Google já está em mais de 10 milhões de Android. Vigia a bateria e o processador, quase não aparece ao utilizador e encaixa na excepção do DMA.

Android Pulse instala-se em silêncio e escapa às regras da UE

Se viste no fim-de-semana um quadrado vazio na fila de actualizações da Play Store, não foi bug nem app fantasma qualquer. Era o Android Pulse, uma ferramenta da Google que anda a ser instalada desde março, já vive em mais de 10 milhões de dispositivos e quase ninguém sabia que existia.

O Pulse é descrito pela própria Google como algo que “facilita a distribuição de regras para detecção de anomalias no consumo de recursos críticos do sistema”. Tradução para português claro: é um vigilante de bastidores que anda à caça de aplicações que se portam mal, seja a drenar bateria, a puxar demasiado pelo processador ou a comer memória. Não tem interface, não aparece no ecrã, não tem ícone decente. Em muitos telemóveis surgiu apenas como um quadrado em branco na lista de updates.

A parte interessante não é tanto o que faz, é como chegou ao teu telefone. Os registos do APKMirror mostram que a app anda a ser distribuída desde março, com sete versões lançadas antes de a Play Store a mostrar publicamente. Em modelos Pixel surge escondida nos menus de definições, com um ícone verde discreto. Em muitos outros só se tornou visível porque a fila de actualizações decidiu desenhar-lhe um quadrado mudo. Zero comunicação, zero contexto.

Este filme não é novo no Android. Em 2025 apareceu o Android System SafetyCore pelo mesmo caminho, também com acusações de spyware a disparar em fóruns e redes sociais sem provas sólidas. O problema é o padrão: software que se instala sozinho, sem explicação prévia, num sistema em que a Google já é vista como omnipresente. Quando a primeira coisa que o utilizador vê é um ícone vazio e um nome opaco, a leitura automática é vigilância, não manutenção.

Em teoria, o enquadramento europeu devia responder a esta sensação. O artigo 6.º, n.º 3 do Digital Markets Act (DMA) obriga os gatekeepers a permitir que o utilizador possa desinstalar qualquer aplicação do sistema, numa tentativa de abrir o Android e reduzir o controlo da Google sobre o que vive no teu telefone. Mas a mesma regra abre uma excepção confortável para “aplicações essenciais de sistema que não podem ser oferecidas de forma independente”. Um serviço de diagnóstico sem interface encaixa aqui com muita facilidade.

Na prática, isto significa que o grande remédio europeu para quem manda no teu telemóvel não apanha o tipo de software que mais desconfiança gera: serviços invisíveis, impostos de cima, que mexem em recursos sensíveis. A ironia é que a função do Pulse até é relativamente benigna, algo entre mecânico e fiscal da bateria. O problema é a cultura de “instalamos, depois explicamos” que a Google se recusa a largar. Depois de anos de discussões sobre privacidade, spyware e actualizações silenciosas, continuar a empurrar componentes fantasma para milhões de dispositivos é pedir para ser tratado como suspeito por defeito.

Fonte: The Next Web

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