CIêNCIA

Robôs humanoides já correm os 100 metros mais rápido que Bolt

Na China, dois humanoides baixaram a fasquia dos 100 e 400 metros. Não são atletas, são projectos de engenharia com pernas e almofadas de embate no fim da pista.

Robôs humanoides já correm os 100 metros mais rápido que Bolt

O recorde de 9,58 segundos de Usain Bolt nos 100 metros continua intacto nos livros do atletismo, mas já foi ultrapassado por robôs. Em Pequim, nos World Humanoid Robot Games, o Tiangong Ultra percorreu os 100 metros em 9,39 segundos, seguido do Lightning, desenvolvido pela Honor, com 9,47 segundos. Tudo isto em prova oficial destes jogos, que funcionam como umas olimpíadas anuais para máquinas bípedes.

Os números impressionam, mas o contexto importa. Estes robôs não são androides fofinhos, são plataformas de investigação afinadas para correr em linha reta, em condições controladas, e nem sequer conseguem abrandar em segurança. A organização montou almofadas de embate no fim da pista, porque a maior parte dos modelos cruza a meta e segue descontrolada contra a parede acolchoada. Em vários vídeos, vê-se o resultado: pernas rígidas, passos estranhamente eficientes, e depois um voo digno de acidente automóvel a baixa velocidade.

O Tiangong Ultra não ficou pelos 100 metros. Nos 400 metros fez 38,16 segundos, melhor que o recorde humano de 43,03 segundos estabelecido por Wayde van Niekerk em 2016. Tecnicamente, é mais um “recorde do mundo” batido por uma máquina, mas aqui entramos naquela zona cinzenta em que a comparação é mais um truque de marketing do que uma avaliação justa. Van Niekerk correu anos, com regras, controlo antidoping e todo um enquadramento desportivo. O robô corre porque uma equipa de engenheiros mexeu na mecânica, no software de controlo e no equilíbrio dinâmico até a coisa deixar de cair de cara no chão.

Mesmo assim, há algo de genuinamente relevante nestes jogos. Pôr 2.056 robôs de 16 países a competir em sprint, salto, futebol, boxe e outras provas obriga a resolver problemas muito concretos de robótica: equilíbrio em alta velocidade, coordenação de múltiplas articulações, controlo em tempo real com atrasos mínimos. Aquelas passadas quase caricatas são o resultado de optimizações agressivas, que tiram partido de materiais rígidos e actuadores precisos, coisas que um corpo humano de carne e osso não tem. Quando se eliminar o “detalhe” de precisar de um crash pad, estes avanços vão saltar dos estádios experimentais para armazéns, fábricas e espaços públicos.

Para quem está em Portugal, isto pode parecer ficção distante, mas é assim que começa: primeiro são corridas em Pequim, depois são humanoides a descarregar contentores em Sines ou a patrulhar instalações industriais. A China está claramente a usar estes eventos como montra de músculo tecnológico. A Europa continua presa em discussões regulatórias sobre IA e robótica sem uma estratégia industrial à altura. Quando dermos por isso, os robôs que correm mais rápido que Bolt também vão trabalhar mais depressa, mais barato e durante mais horas que muita gente. E nessa final não vai haver almofada de embate para a economia.

Fonte: The Verge

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