Neptuno e Urano são conhecidos na astronomia como gigantes gelados, mas o rótulo engana. Lá dentro, a meio caminho entre a atmosfera e o núcleo, a pressão e a temperatura são tão absurdas que o carbono se transforma em diamante e começa literalmente a “chover”. Foi esse cenário que uma equipa do Lawrence Livermore National Laboratory (LLNL), na Califórnia, decidiu recriar em laboratório, com um objectivo menos poético e bem mais terrestre: perceber como é que o carbono derrete nessas condições e usar essa física para puxar pela fusão nuclear.
Usando lasers de alta energia para gerar ondas de choque, os investigadores comprimiram minúsculas amostras de diamante até temperaturas superiores à superfície do Sol e pressões mais altas do que no interior de Neptuno e Urano. Tudo isto em amostras com poucas centenas de micrómetros de espessura e durante tempos ínfimos, mas suficientes para medir estrutura atómica, temperatura, densidade e reflectividade. O estudo, publicado na Nature Physics, mostra que o diamante se mantém sólido e bem ordenado até ao momento em que derrete, sem estados intermédios exóticos que muitos modelos teóricos assumiam.
À primeira vista isto parece apenas boa notícia para quem faz simulações de atmosferas planetárias. E é. Os dados servem como “marcos à escala atómica” para refinar modelos quânticos do comportamento da matéria em pressões de terapascais, dezenas de milhões de vezes a pressão atmosférica aqui na Terra. Mas o interesse real do LLNL não está em Neptuno. Está na National Ignition Facility, o gigantesco complexo de lasers inaugurado em 1997 que persegue fusão por confinamento inercial e que tem sido alvo de cepticismo dentro da própria comunidade científica, mesmo depois de ter conseguido um balanço energético positivo em 2022.
No confinamento inercial, o combustível de fusão é encapsulado numa cápsula microscópica de diamante e implodido por impulsos de laser. Para maximizar o ganho de energia, o diamante tem de derreter de forma controlada e permanecer um fluido uniforme durante a implosão. A nova experiência sugere que se podem usar choques iniciais ligeiramente mais lentos e com menos potência para ainda assim obter fusão completa do diamante. Em linguagem menos técnica: com a mesma energia de laser, o combustível torna-se mais compressível, o que pode aumentar significativamente o rendimento energético dos disparos. O LLNL fala em ganhos até três vezes superiores ao que estas configurações costumavam permitir.
Se isso se confirmar em disparos reais, temos um pequeno mas concreto passo num caminho que é tudo menos garantido. A fusão por confinamento inercial compete com outras abordagens, como os dispositivos magnéticos do tipo tokamak ou os esquemas híbridos que empresas privadas estão a explorar, muitas vezes com mais marketing do que resultados. Tal como no nuclear de fissão avançado, onde projectos como o da TerraPower prometem reactores compactos para alimentar a febre da IA, a fusão vive entre a física sólida e a promessa demasiado optimista. Esta chuva de diamantes sintética é, pelo menos, física séria publicada num sítio respeitável, não um slide de apresentação para investidores.
Para já, nada disto muda a factura da luz em Portugal. Mas acrescenta uma peça importante ao puzzle: compreender a fundo o comportamento de materiais sob condições extremas é obrigatório se quisermos que a fusão saia dos laboratórios militares e entre no mix energético civil. A ironia é clara. Pode ser a meteorologia bizarra de dois planetas azulados nos confins do Sistema Solar a ensinar-nos a espremer mais energia de cada disparo de laser aqui na Terra. Se a fusão chegar a valer a pena, passará por este tipo de detalhes microscópicos, não por anúncios bombásticos.
Fonte: Gizmodo
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