CIêNCIA

IBM quer escalar computação quântica com túneis criogénicos modulares

A gigante norte-americana apresentou armários criogénicos rectangulares que se ligam entre si por “túneis” super-frios. É a engenharia de frigoríficos a tentar destravar o próximo salto quântico.

IBM quer escalar computação quântica com túneis criogénicos modulares

A IBM anda a desenhar frigoríficos de luxo para qubits. Literalmente. A empresa mostrou novos armários criogénicos modulares, rectangulares, que se podem ligar entre si por “túneis” também criogénicos, pensados para permitir que os seus computadores quânticos continuem a escalar sem se afogarem em ruído e cabos.

Os qubits da IBM vivem em chips que só funcionam perto do zero absoluto, o que obriga a sistemas de arrefecimento extremos. Até aqui, a solução eram grandes frigoríficos cilíndricos, muito fotogénicos nas keynotes, pouco práticos para crescer em série. Os novos módulos são caixas de alumínio, três vezes maiores do que um frigorífico doméstico, com cerca de 0,53 metros quadrados de área disponível para cablagem e 2,75 metros cúbicos de câmara de vácuo. Em português simples, mais espaço para processadores quânticos maiores e configurações mais densas.

A mudança de formato não é detalhe estético. A IBM bateu no limite de quantos qubits consegue enfiar num único chip com qualidade suficiente. A solução passa por ligar vários processadores quânticos, cada um a tratar de parte de um problema, tal como ligamos GPUs em servidores de IA ou servidores em clusters clássicos. Mas aqui o inimigo é feroz: ruído. Cabos longos e ligações mal protegidas injectam calor e perturbações que destroem a superposição dos qubits e estragam o cálculo.

É aqui que entra o “túnel criogénico”. As novas caixas têm aberturas dedicadas para “cabos quânticos” rodeados por múltiplas camadas de blindagem térmica, criando um corredor frio entre sistemas. A ideia é manter ao longo de todo o caminho as temperaturas absurdamente baixas que os qubits exigem, sem pontos quentes a introduzir erros. É, no fundo, pegar na lógica dos racks de centros de dados, aproximar o hardware e encurtar caminhos, mas aplicado a máquinas que funcionam a fracções de grau acima do nada.

Para o resto do mundo, incluindo universidades e empresas em Portugal que hoje acedem a estas máquinas sobretudo via cloud, o recado é mais estratégico do que imediato. A IBM quer um chassis padrão, reutilizável para várias gerações de hardware quântico, que torne a coisa menos exótica e, com o tempo, menos cara de operar. É o oposto da caixa única e artesanal que se vê em muitos laboratórios. Se a fibra oca promete mexer com o mapa dos centros de dados clássicos, estes módulos criogénicos tentam fazer o mesmo para os poucos data centers quânticos que realmente contam.

Convém manter os pés no chão gelado: mesmo com túneis criogénicos, estes “Q-puters” continuam a ser protótipos gordos, caros e frágeis, longe de substituir servidores Nvidia ou clusters CPU nos workloads reais. Mas o detalhe importa. Quando uma tecnologia depende tanto de tubagens, cabos e vácuo como de algoritmos, é nas caixas de alumínio e nos metros de isolamento que se decide se a computação quântica sai da fase de demo permanente. A IBM está a apostar que o próximo salto não é mais um qubit no chip, é mais um módulo no rack.

Fonte: The Register

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