CIêNCIA

TerraPower quer alimentar a febre da IA com reactores nucleares

A empresa de Bill Gates aposta num reactor com armazenamento térmico para aguentar os picos brutais dos data centers de IA. Ideia sedutora, mas longe de estar resolvida para a Europa.

TerraPower quer alimentar a febre da IA com reactores nucleares

Os data centers de IA comem eletricidade ao pequeno-almoço. E a TerraPower, de Bill Gates, acha que tem a receita: um reactor nuclear de 345 megawatts com um truque debaixo da mesa, armazenamento de energia em sal fundido, pensado para lidar com cargas nervosas como as de treino e inferência de modelos gigantes.

Segundo a Bloomberg, a TerraPower vai anunciar ainda este ano o seu primeiro projecto de data center, com início de construção previsto para 2027. Será a segunda central da empresa, depois do reactor em construção no Wyoming. Cliente ainda em segredo, mas em janeiro a empresa anunciou que a Meta se comprometeu a comprar oito centrais Natrium, o que dá uma pista óbvia sobre quem anda a namorar este tipo de infraestrutura.

O problema que a TerraPower tenta resolver é simples de enunciar, caro de atacar. Reactores nucleares gostam de funcionar sempre no máximo. Têm o maior fator de capacidade da geração elétrica, cerca de 92,5% do tempo a debitar potência máxima nos EUA. Mas são lentos a subir e descer carga, e têm custos iniciais absurdamente altos. Parar ou abrandar é deitar dinheiro para a atmosfera. Por outro lado, os data centers de IA não são uma carga suave, os GPUs disparam consumo em segundos, e já houve turbinas a gás a partir por não aguentarem as oscilações.

As pequenas centrais modulares, os famosos SMR (small modular reactors), prometem responder mais depressa, mas isso não altera a matemática: capital brutal à cabeça, necessidade de estar ligado o máximo de horas possível. É aqui que entra o tal truque da TerraPower. Em vez de andar a acelerar e travar o reactor, mantém a fissão estável e guarda o excesso de calor num enorme tanque de sódio fundido. Quando a procura sobe, usa esse reservatório para gerar mais vapor e puxar mais potência das turbinas, sem massacrar o núcleo nem o equipamento mais caro.

A ideia é casar o melhor do nuclear, elevada disponibilidade, com uma espécie de bateria térmica que permite seguir tanto uma rede cheia de eólica e solar como um data center glutão e imprevisível. Em teoria, um data center poderia ter um reactor destes “atrás do contador” e reduzir a dependência da rede pública. Em prática, entra a parte que os comunicados adoram esquecer: licenciamento nuclear, aceitação pública, critérios de segurança pós-Fukushima, e o pequeno detalhe de ligar isto à regulação energética europeia e portuguesa. A conversa é toda feita em solo norte-americano, com enquadramentos regulatórios bem mais permissivos.

Para quem vive na União Europeia, e em Portugal em particular, o anúncio da TerraPower é mais sintoma do que solução. Mostra até que ponto a corrida à IA está a puxar por tudo o que é fonte de energia firme, de gás a nuclear avançado. Mas não resolve o básico, que é a transparência sobre o consumo das grandes clouds e a forma como vão partilhar, ou não, essa carga com o resto da sociedade. Reactores com tanques de sódio dão bons títulos, o conflito entre centros de dados e redes elétricas já existentes é que continua a pedir respostas menos fotogénicas e mais políticas.

Fonte: TechCrunch

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