CIêNCIA

Memórias que sobrevivem a um cérebro quase desligado intrigam cientistas

Estudo em ratos em hibernação mostra que lembranças persistem mesmo depois de sinapses desaparecerem. A neurociência volta ao quadro em branco sobre onde vive a memória.

Memórias que sobrevivem a um cérebro quase desligado intrigam cientistas

Ratos que “desligam” o cérebro durante a hibernação acordam e continuam a lembrar-se do que aprenderam antes de entrar em pausa profunda. O detalhe incómodo para a neurociência é que, nesse processo, perdem uma quantidade brutal de sinapses, as ligações entre neurónios que supostamente sustentam as memórias. Quando voltam à vida normal, essas sinapses reaparecem, mas não são necessariamente as mesmas, e ainda assim as memórias estão lá.

É este o enigma descrito num novo estudo citado pela 404 Media. Em hibernação profunda, a actividade neuronal baixa ao mínimo, o cérebro encolhe ligeiramente, o consumo de energia cai, e as tais sinapses reduzem-se de forma dramática. Em teoria, isto devia ser uma sentença de morte para memórias recentes, que se pensa dependerem precisamente da força e do padrão dessas ligações. Na prática, os ratos saem da hibernação e continuam a executar tarefas aprendidas antes, como se nada tivesse acontecido.

O resultado aponta para uma conclusão desconfortável: as memórias não estão tão presas a um “circuito fixo” como a versão simplificada dos manuais sugere. Em vez disso, poderão estar distribuídas por padrões de actividade que o cérebro consegue reconstruir mesmo depois de um “reset” físico parcial. Quase como se o sistema nervoso guardasse uma espécie de blueprint redundante, espalhado por várias camadas, que permite reconstruir a casa mesmo depois de deitar abaixo paredes internas.

Para quem ainda tinha a fantasia de que “uma memória é este conjunto específico de sinapses”, estes dados são um balde de água fria. Também abrem perguntas menos simpáticas sobre o que significa “apagar” memórias, em contextos de trauma ou de doenças neurodegenerativas. Se o cérebro tem esta capacidade de reorganizar o hardware e ainda assim preservar o conteúdo, qualquer abordagem simplista tipo borracha digital parece ingénua. A história faz eco de outras zonas cinzentas entre vida e apagão, das experiências de quase-morte às memórias fragmentadas em coma, onde também não é nada claro até onde vai o verdadeiro desligar.

Há ainda uma implicação prática: se o cérebro tolera este grau de reconfiguração sem perder informação, talvez os modelos computacionais de memória estejam a ser conservadores de mais. O paralelismo fácil com IA é tentador, mas aqui o ponto é quase o inverso. As redes neuronais artificiais são frágeis, sofrem catástrofes de esquecimento quando se lhes ensina algo novo sem cuidado. O cérebro de um roedor, em hibernação, apaga grande parte da cablagem, volta a ligá-la de forma diferente e continua a saber o que interessa. A nossa engenharia ainda está longe disto.

No limite, o estudo lembra-nos que “apagado” raramente é absoluto, seja num cérebro ou numa conta online. A maneira como memórias humanas se agarram a estruturas redundantes, distribuídas, parece estranhamente parecida com a forma como rastos digitais teimam em sobreviver a supostos apagões. Quem já leu sobre o que acontece às contas digitais quando morres reconhece o padrão: achamos que desligámos o sistema, mas há sempre qualquer coisa a insistir em ficar.

Fonte: 404 Media

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