Stripe e Advent em negociações avançadas para comprar a PayPal
A histórica fintech de San José pode mudar de mãos por 53 mil milhões de dólares. É o auge da consolidação nos pagamentos digitais e um retrato do cansaço de Wall Street.
A histórica fintech de San José pode mudar de mãos por 53 mil milhões de dólares. É o auge da consolidação nos pagamentos digitais e um retrato do cansaço de Wall Street.
A PayPal pode estar prestes a deixar de ser a PayPal que conhecemos. Segundo o Wall Street Journal, Stripe e o fundo de private equity Advent continuam em negociações ativas para comprar a empresa por 60,50 dólares por ação, num negócio que avaliaria a fintech em cerca de 53 mil milhões de dólares, algo como ~48,5 mil milhões de euros. Não é uma proposta nova, é a proposta que a PayPal rejeitou em julho. Só que, pelos vistos, ninguém largou o osso desde então.
Nem a PayPal nem a Stripe querem comentar, o que em linguagem corporativa costuma significar “há conversa séria”. A novidade é o contexto interno. O novo CEO, Enrique Lores, chegou em março vindo da HP com mandato claro: travar a queda prolongada da empresa depois do pico na pandemia. Em abril anunciou uma reorganização profunda, partindo o negócio em três blocos: soluções de checkout e PayPal, serviços financeiros para consumidor (incluindo Venmo) e serviços de pagamentos e cripto. Ao mesmo tempo prometeu “voltar a ser uma empresa de tecnologia”, um eufemismo recorrente sempre que a folha de cálculo manda mais do que o código.
Esse tal “regresso à tecnologia” vem acompanhado de um plano de redução de custos que prevê cortar cerca de 20% dos postos de trabalho ao longo de dois a três anos. Não é propriamente o tipo de agenda que motiva equipas de produto a arriscar, mas agrada a potenciais compradores financeiros como a Advent. Para Stripe, que continua privada e avaliada pelos investidores como a estrela do sector, absorver a PayPal seria um atalho brutal para escala e presença global. Para a PayPal, seria admitir que a dose de fintech dos anos 2000 acabou e que a fase seguinte passa por consolidação agressiva.
Para quem está em Portugal ou na Europa, a questão prática é simples: o que acontece ao botão azul que vive em metade das lojas online e a integrações com bancos locais, cartões e débito direto? Numa aquisição deste tamanho, nada muda de um dia para o outro. Reguladores nos EUA e na União Europeia iriam esmiuçar o negócio, sobretudo na área de pagamentos online e carteiras digitais. Stripe já é uma das principais processadoras de pagamentos na Europa, juntar isso à marca e base de utilizadores da PayPal levanta naturalmente questões de concentração, mesmo num mercado onde ainda há peso pesado como Visa, Mastercard, Adyen ou as soluções próprias dos bancos.
Há também uma mudança simbólica. A PayPal nasceu em 1998, deu origem à famosa “PayPal Mafia” de nomes como Peter Thiel e Elon Musk, e durante anos foi o rosto dos pagamentos online para pessoas que não queriam pôr o cartão em todos os sites. Hoje, com Apple Pay, Google Pay, MB Way, Revolut, soluções das próprias lojas e PSD2 a abrir APIs bancárias, a proposta da PayPal parece menos óbvia. O que estas negociações mostram é mais simples do que grandes discursos sobre o futuro do dinheiro digital: até as fintechs que “transformaram” pagamentos acabam, mais cedo ou mais tarde, na mesma prateleira que os bancos tradicionais, a ser compradas, fundidas e reestruturadas ao ritmo dos fundos de investimento.
Fonte: TechCrunch
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