CIêNCIA

CISS: o espectrómetro italiano que aposta tudo num só eclipse

Um novo instrumento solar vai ter apenas alguns minutos durante o eclipse total de hoje para provar que merece lugar no arsenal da física solar europeia.

CISS: o espectrómetro italiano que aposta tudo num só eclipse

Há projetos científicos que se podem repetir com calma até ficarem perfeitos. E depois há o CISS, um espectrómetro italiano que tem literalmente um tiro único ao Sol: os poucos minutos de eclipse total de hoje sobre a Europa, observado a partir do Observatório Astrofísico de Javalambre, em Espanha.

O Circular Slit Spectrometer (CISS) foi construído em Pádua e Turim, viajando de carro pela Europa para evitar os riscos e vibrações de um porão de avião. Não é um coronógrafo clássico, desses que fabricam o seu próprio eclipse ao tapar o disco solar. É um espectrómetro pensado de raiz para aproveitar o momento em que a Lua tapa o brilho brutal do Sol e revela a coroa, a atmosfera externa ténue que normalmente é engolida por luz milhões de vezes mais intensa.

A graça da coroa é precisamente essa: torna-se visível a olho nu durante instantes e, nesse curto intervalo, oferece aos físicos solares uma janela raríssima para estudar temperaturas extremas, composição e dinâmica do vento solar. Daí continuarem a existir equipas que andam literalmente atrás de eclipses em vez de se resignarem ao calendário celeste. O CISS quer tornar essa perseguição mais eficiente, atacando uma limitação básica dos espectrómetros tradicionais.

Os modelos lineares convencionais varrem a coroa linha a linha. O processo pode levar horas, o que é aceitável num telescópio solar de rotina, mas absurdo para um eclipse que dura minutos. O CISS troca essa abordagem por uma fenda circular, capturando num único registo espectral todo o anel da coroa. Em vez de arrastar uma fenda pelo céu, tira uma “fotografia” espectral da coroa inteira. Se tudo correr bem, obtém, num único conjunto de dados, o que instrumentos antigos demorariam uma manhã a montar peça a peça.

É aqui que entra o nervosismo: como admitiu a investigadora sénior Paola Zuppella, não há espaço nem tempo para imprevistos. A totalidade em Javalambre dura minutos, e qualquer nuvem teimosa arruína anos de trabalho. A equipa divide‑se entre Turim, que lidera a parte científica sob coordenação de Federico Landini, e o laboratório de fotónica em Pádua, que tratou da ótica. A ambição não é modesta, fala‑se de leituras da coroa com detalhe sem precedentes, capazes de complementar o que já vamos aprendendo com o maior telescópio solar do mundo.

Enquanto este grupo depende de um alinhamento cósmico raro, as agências espaciais europeias trabalham em paralelo para tornar eclipses um recurso sob pedido. Missões com dois satélites em formação apertada conseguem criar eclipses artificiais controlados, um a fazer de “Lua” a sombrear o outro. O contraste é curioso: tecnologia orbital a fabricar o que a natureza oferece de forma esporádica, e um instrumento de solo a tentar provar, numa única oportunidade, que merece lugar nessas futuras missões. Se o CISS falhar, é mais uma nota de rodapé na longa lista de experiências eclipsadas pela meteorologia. Se acertar, pode muito bem reescrever a forma como olhamos para a coroa solar nos próximos anos.

Fonte: The Next Web

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