Japão fecha quase a sua rede própria de satélites de navegação
O sétimo satélite Michibiki está em órbita, o quinto perdeu-se num H3 com cola a mais. O Japão junta-se ao clube dos que não dependem só do GPS dos EUA.
O sétimo satélite Michibiki está em órbita, o quinto perdeu-se num H3 com cola a mais. O Japão junta-se ao clube dos que não dependem só do GPS dos EUA.
O Japão pôs finalmente em órbita o Michibiki nº 7, ou QZS-7, o último satélite da geração actual do seu sistema de navegação por satélite. O lançamento foi feito por um foguetão H3 da JAXA, a agência espacial japonesa, que precisava desta vitória depois de falhar em dezembro de 2025 devido a um problema tão prosaico quanto humilhante: cola onde não devia, a arruinar a missão do QZS-5.
Com o QZS-7 em cima, Tóquio dá por praticamente concluída a primeira fase do QZSS, o Quasi-Zenith Satellite System. A ideia é simples, e politicamente carregada. Reduzir a dependência do GPS americano, garantir sinal estável em todo o arquipélago e, já agora, afinar a precisão para aplicações civis e militares. O argumento oficial é técnico, a realidade é estratégica. Num mundo em que a União Europeia empurra o IRIS² como rede satélite soberana e onde se discute autonomia tecnológica em Bruxelas, o Japão não quer ficar preso ao humor de Washington.
O QZSS não substitui o GPS, trabalha em complemento. O truque está na órbita. Em vez de satélites geostacionários clássicos, o Japão usa órbitas geossíncronas inclinadas que desenham um oito no mapa. Isso faz com que os satélites se movam mais devagar quando estão sobre o hemisfério norte e passem muitas horas “pendurados” sobre o Japão. Resultado: em zonas montanhosas ou em florestas de arranha-céus onde o GPS falha mais, há quase sempre um satélite QZSS muito alto no céu, a garantir boa geometria para triangulação e menos erros de posição.
O primeiro satélite experimental subiu em 2010. A configuração inicial de quatro satélites operacionais, lançados entre 2017 e 2021, já oferecia cobertura decente: pelo menos um satélite a mais de 70° de elevação sobre o Japão a qualquer momento. Daí o nome “quasi-zenith”. Não era perfeito, mas chegava para testar serviços de alta precisão e preparar o salto para sete satélites. O plano político evoluiu, a ambição também, e o governo japonês decidiu alargar a constelação, com lançamentos em 2025 e agora em 2026.
Mesmo assim, há um buraco visível. O tal QZS-5 perdeu-se na falha do H3 de 2025 e, por agora, não há previsão de substituição. Oficialmente, o Japão considera que tem “quase toda” a cobertura que queria. Traduzindo: há margem para operar, mas não para grandezas. Os próximos três satélites só estão previstos para algum momento na década de 2030, o que mostra bem como estes programas se medem em décadas e não em ciclos eleitorais. Para quem na Europa anda a ler sobre o IRIS² e a obsessão europeia com soberania orbital, o Japão é um caso de estudo de persistência discreta.
A outra personagem desta história é o próprio H3. O novo foguetão de gama média da JAXA soma agora nove voos, com duas falhas no currículo. Não é propriamente um registo de luxo para quem quer vender “camionagem” orbital fiável num mercado onde a SpaceX banalizou a ideia de reutilizar foguetões. O sucesso do lançamento do QZS-7 não apaga o desastre provocado por cola mal gerida, mas ajuda a tirar o H3 da lista de suspeitos crónicos. O Japão ganhou um sistema de navegação quase completo e um pouco mais de confiança no seu camião espacial. Para já, chega.
Fonte: The Register
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