CIêNCIA

Viagens interestelares com velas de luz já não são pura ficção científica

Mini-sondas com velas impulsionadas por lasers ou pelo Sol podem ser a primeira forma realista de chegar a outra estrela ainda neste século.

Viagens interestelares com velas de luz já não são pura ficção científica
Imagem: © NASA/Ames Research Center/Daniel Rutter

A confirmação recente de uma atmosfera em LHS 1140b, um exoplaneta rochoso a 48 anos-luz, voltou a pôr a pergunta desconfortável em cima da mesa: vamos ficar toda a vida a ver mundos habitáveis ao longe, ou vamos finalmente tentar lá chegar.

A ideia dominante continua a ser que viagens interestelares são coisa de Star Trek. Mas, à escala da engenharia, o debate está a mexer. Em vez de gigantescos “cruzeiros estelares” cheios de humanos em animação suspensa, o cenário mais plausível passa por sondas microscópicas, cheias de sensores de telemóvel, presas a velas ultrafinas empurradas por luz. Primeiro passo: aceitar que o corpo humano é lastro caro e frágil. Segundo: explorar até ao limite a miniaturização de electrónica que já tens no bolso.

Os sensores encolheram. Câmaras, termómetros, espectrómetros e rádios do tamanho de um selo já não são ficção. Há até conceitos de smart dust, literalmente “pó inteligente”, com sensores à escala de milímetros capazes de medir luz, temperatura ou químicos. Uma sonda interestelar pode ser pouco mais que um chip com antena, câmara minúscula e um escudo térmico simbólico. Quanto mais leve, mais fácil é aproximá-la de 10 a 20% da velocidade da luz, o regime “mild relativistic” que permite chegar a outra estrela em poucas décadas, não em milénios.

É aqui que entram as velas de luz. Membranas reflectoras tão finas que praticamente só existem como superfície, empurradas pela pressão da luz. O conceito de vela solar clássica usa o Sol como motor e já está a ser testado em órbita. Para salto interestelar, o plano é mais agressivo: um enxame de lasers na Terra (ou em órbita) a debitar dezenas de gigawatts em feixes sincronizados, concentrados numa vela de poucos metros. Minutos de aceleração violenta e a sonda sai disparada para outra estrela. A infraestrutura fica cá, a carga útil segue quase nua. Em termos de física, faz mais sentido do que continuar a imaginar foguetões químicos a carregar toneladas de combustível para sempre.

O lado menos romântico: a sonda não trava. Chega à vizinhança da estrela, passa em frente aos planetas em poucos dias e continua viagem para o vazio. O plano é fazer medições em passagem e ir “pingando” dados para trás, durante anos ou décadas, com transmissões fraquíssimas a partir de um emissor do tamanho de uma moeda. A engenharia de comunicações aqui é tão desafiante como a propulsão. Basta olhar para a forma como a NASA espreme cada bit que o Perseverance manda de Marte para perceber o salto que isto implica.

Iniciativas como a Breakthrough Starshot vivem desta tensão entre plausível e megalómano. Falar em matrizes de lasers de dezenas de gigawatts soa a ficção, mas não é mais absurdo do que pareceram as primeiras propostas de uma estação espacial permanente nos anos 60. A diferença é política e económica, não física. Construir uma “lanterna” planetária para lançar chips rumo a Proxima Centauri não resolve nenhum problema imediato na Terra. Não traz 5G melhor, nem baixa o preço da energia. É puro projecto civilizacional. Se aceitarmos que vale a pena ter uma pegada em Marte, com sondas a registarem quilómetros de solidão no deserto vermelho, então o passo seguinte lógico é admitir que o primeiro visitante humano a outra estrela não terá corpo. Será um wafer de silício, carregado por luz, a olhar de relance para um mundo potencialmente habitável antes de desaparecer para sempre no escuro.

Fonte: Gizmodo

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