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ARC em Londres mostra porque o retro gaming ainda importa em 2026

Mais de 65 máquinas, muitas ligadas e jogáveis, contam três décadas de informática pessoal na Kingston University. Não é só nostalgia, é memória técnica em tempo quase real.

ARC em Londres mostra porque o retro gaming ainda importa em 2026

No campus da Kingston University, no sul de Londres, há esta semana um pequeno museu vivo da história dos videojogos e da informática pessoal. Chama-se Archive of Retro Computing e é gratuito. O alinhamento não é tímido: mais de 65 computadores domésticos e consolas, dos anos 70 ao início dos 2000, muitos deles ligados, com jogos a correr em ecrãs CRT. É o género de exposição que em Portugal continua a aparecer só como canto simpático em convenções, quando isto já devia estar ao nível de museu nacional.

O ARC é conduzido por Paul Neve, responsável de licenciaturas em ciência de computadores na universidade. Neve cresceu com um Atari 2600, depois mergulhou nos 8 bits, com os inevitáveis Sinclair Spectrum e Commodore 64, saltou para ZX81, Spectrum 128, Spectrum +2, Atari ST, e acabou já em consolas como a PlayStation original e a primeira Xbox. Nada disto é teórico: ele fala daquele Spectrum como “primeiro grande amor” e ainda hoje assume Manic Miner como jogo favorito. Não por fetiche retro, mas porque prefere jogos que cabem numa tarde em vez de lhe pedirem 100 horas da vida.

A colecção que hoje enche salas da universidade começou quase por acidente. Um colega de Neve tinha um contrato com uma empresa de limpeza de casas. Encontraram o espólio de um engenheiro excêntrico que, desde 1970, comprava praticamente tudo o que saía. A ideia inicial era leiloar o lote inteiro. Alguém teve o bom senso de dizer: isto devia ser exposto antes de desaparecer em colecções privadas. Em 2004 fizeram a primeira mostra e correu tão bem que Neve decidiu assumir ele próprio a personagem de coleccionador obsessivo. Chama-lhe “crise de meia-idade”. Há quem compre um descapotável, ele comprou consolas.

Hoje fala de 70 a 80 máquinas no acervo, com uma mistura inteligente de clássicos e raridades. Estão lá as consolas 3D de primeira vaga, da PS1 à Dreamcast, mas também o Fairchild Channel F, uma das primeiras a usar cartuchos amovíveis, ou a Vectrex, aquele monólito vectorial de 1982 que parece mais instalação de arte do que consola doméstica. Pelo meio surge o Sam Coupé, o “filho do Spectrum”, fracasso comercial que quase ninguém viu em loja. Se tudo isto te acende aquela vontade de sacar um clone chinês para emular meia infância, lembra-te que já escrevemos sobre como a nostalgia portátil tem tanto encanto como compromissos.

O detalhe importante aqui é outro: isto não é uma sala de troféus de vidro. Os computadores estão ligados, com jogos e software a correr, e servem também como ferramenta de ensino. Alunos de ciência de computadores não aprendem só em slides sobre CPUs de 8 bits, vêem-nos, mexem neles, percebem limites físicos de RAM e armazenamento. A tal “enorme quantidade de coisas a aprender” de que Neve fala não é só sobre história, é sobre design de sistemas com restrições duras. Quem hoje programa para IA em placas com centenas de watts ganha alguma humildade ao olhar para alguém que fez um jogo inteiro a caber em poucos kilobytes.

Para nós, do lado de cá do Canal, a pergunta óbvia é: porque é que isto ainda não existe com escala em Portugal. Há projectos dispersos, colecções privadas, uma ou outra mostra em events de retrogaming, mas falta uma estrutura estável ligada a universidades ou museus de ciência, com a mesma seriedade que damos a locomotivas a vapor. O trabalho do ARC em Londres mostra que preservar hardware e jogos não é indulgência saudosista. É documentação técnica, cultural e pedagógica de uma era em que computadores passaram de luxo a objecto doméstico. E isso, quer tenhas começado num Spectrum, quer numa Switch, diz-te respeito.

Fonte: Eurogamer

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