CIêNCIA

Microsoft chuta o método científico para canto no seu sonho quântico

O chefe de computação quântica da Microsoft diz que não quer “provar” que criou um novo estado da matéria. Prefere guardar dados, ignorar pares e apostar tudo no protótipo.

Microsoft chuta o método científico para canto no seu sonho quântico

Zulfi Alam, vice-presidente corporativo de computação quântica da Microsoft, tem uma abordagem simples à crítica científica: não quer saber. Literalmente. Questionado sobre o ceticismo em torno dos resultados da sua equipa, responde com um “não me interessa” dito a rir. Para quem lidera um projeto de vários milhares de milhões de dólares para criar um computador quântico “útil” até 2029, o desinteresse pelo escrutínio público é, no mínimo, revelador.

O plano da Microsoft passa por qubits topológicos baseados em quasipartículas de Majorana, uma rota mais ambiciosa do que a dos rivais que trabalham com átomos neutros, iões presos ou fotões. Em teoria, estes qubits seriam muito mais estáveis. Na prática, as tais Majoranas, previstas há quase 90 anos, continuam esquivas. E o histórico da empresa não ajuda: em 2021 teve de retratar um artigo na Nature sobre evidência de Majoranas, depois de físicos externos detectarem problemas na análise de dados.

No ano passado, a equipa de Alam voltou a anunciar que tinha “dividido” um electrão em quasipartículas de Majorana. Vários investigadores olharam para os gráficos e não ficaram convencidos, porque outros fenómenos físicos podiam explicar os mesmos sinais. Este ano, em junho, a Microsoft subiu de tom: disse ter produzido um qubit 1.000 vezes mais fiável do que o anterior, ajudada por um agente de IA para descoberta científica. Mas continuou a recusar a divulgação dos dados em bruto. Perante pedidos de transparência, Alam devolve outra pergunta: “Porque haveria de o fazer?”

A justificação oficial mistura dois argumentos: segredo comercial e lentidão da publicação científica. O primeiro é compreensível até certo ponto, o segundo é simplesmente conveniente. Alam queixa-se de que um artigo recente na Nature se baseava em trabalho com dois anos, logo o modelo de revisão por pares seria “inadequado” num campo em movimento rápido. Também diz que não há peritos suficientes para acelerar o processo. Em resumo, a ciência é lenta, os negócios são rápidos, e o papel “já não interessa”. Isto vindo de uma empresa que reclama ter dado um salto de três ordens de grandeza na fiabilidade de qubits.

O resto da comunidade não está a achar piada. Trevor Lanting, físico e responsável de desenvolvimento na D-Wave, lembra que o campo está a crescer e que há muitos especialistas fora destas gigantes capazes de avaliar o mérito dos resultados. Para ele, submeter alegações a revisão por pares faz parte da “higiene” mínima para consolidar ciência e tecnologia. Quando uma empresa diz que “não tem tempo” para isso, lê a frase como um eufemismo para “os nossos resultados não aguentam escrutínio”. A D-Wave também foi criticada por exagerar, mas ao menos põe os dados em cima da mesa.

Alam prefere outro tipo de prova: mostrar um computador quântico a funcionar e deixar que a máquina fale por si. O feedback crítico, garante, só os motiva a acelerar. A posição tem algo de Silicon Valley em esteróides: move fast, quebra certezas, e depois logo se vê se a física concorda. O problema é que, sem transparência, a fronteira entre avanço legítimo e wishful thinking de marketing fica perigosamente difusa. Para a Microsoft, recusar o método científico pode poupar tempo hoje. Para quem quer confiar em criptografia pós-quântica, novos fármacos ou simulações de materiais baseadas nestas máquinas, é um luxo que sai caro.

Fonte: Wired

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