Linux dispara nas estatísticas, mas a culpa é dos bots de IA
O uso de Linux nos EUA quase duplicou de um mês para o outro. Os números parecem históricos, mas quem está a ocupar o tráfego não são humanos ao teclado.
O uso de Linux nos EUA quase duplicou de um mês para o outro. Os números parecem históricos, mas quem está a ocupar o tráfego não são humanos ao teclado.
De repente, as métricas dizem que o Linux quase dobrou a presença nos desktops norte‑americanos. De uns habituais 3% a 5% para perto de 10% em poucas semanas entre maio e junho, segundo a Statcounter. Para quem anda há anos a ouvir que “este é o ano do desktop Linux”, soa a milagre estatístico. E é mesmo isso: estatística mais do que milagre.
O caso começou com os gráficos da Statcounter, que mede visitas a sites e identifica o sistema operativo usado. De um mês para o outro, Linux salta para a casa dos 10%. Parecia finalmente a consagração do pinguim em PCs de consumo. Só que a Statcounter não distingue humanos de bots. E quando se mete automatização pesada na equação, o filme muda de género.
A Cloudflare entrou em cena com dados próprios, baseados em pedidos HTTP por sistema operativo. Nos EUA, entre 4 de julho e 1 de agosto, Linux representou 9,8% do tráfego de internet em desktop, muito alinhado com a Statcounter. Mas a Cloudflare tem um filtro de “likely human”. Quando o aplica, a quota de Linux cai para 6,4%. Ou seja, boa parte do tal “crescimento histórico” vem de máquinas a falar com máquinas, não de pessoas a instalar distros novas no portátil.
O suspeito principal tem nome da moda: agentes de IA. São bots que executam tarefas de forma autónoma, com pouca supervisão humana. O CEO da Linux Foundation, Jim Zemlin, resume a coisa sem rodeios: “Linux é o sistema operativo de escolha para agentes de IA”. Faz sentido, e não é de hoje. Se vais lançar milhares de instâncias em cloud para escrapear dados, automatizar crawling ou orquestrar workloads de IA, não vais pôr Windows com licença por máquina. Vais pôr Linux, muitas vezes em imagens super minimalistas, pensadas para viver e morrer em segundos.
O próprio CEO da Cloudflare, Matthew Prince, já tinha avisado em junho que os bots passaram a gerar mais tráfego na internet do que humanos, pela primeira vez na história da rede. Se a maior parte desse tráfego automatizado corre em Linux, qualquer pico de actividade de um grande serviço, uma vaga de scraping agressivo ou um novo exército de agentes de IA chega para deslocar as estatísticas de sistema operativo de um mês para o outro. Não é o típico padrão lento de adopção de um OS por pessoas reais.
Para quem vive em Linux há anos, isto tem um sabor agridoce. O sistema que sustenta a internet, os routers, a maioria dos telemóveis Android e até distros amigáveis como AerynOS ou Ubuntu continua relativamente marginal no desktop pessoal, mas domina o submundo que cada vez mais gera o tráfego: cloud e automatismos. Em Portugal, se olhares para os portáteis da família ou do escritório, não vais ver um salto repentino para Linux. O que está a crescer é a camada invisível, cheia de containers e VMs Linux, que fazem scraping aos mesmos sites que tu lês no browser. O “ano do desktop Linux” continua em modo vaporware, mas o “ano do Linux dos bots” já começou há algum tempo, e agora aparece finalmente nos gráficos.
Fonte: CNET
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