Startup quer trocar cabos submarinos por lasers entre data centers
A EON levanta 10,75 milhões de dólares para testar ligações ópticas orbitais a terabits por segundo. Menos escavadoras no fundo do mar, mais engenharia fina na órbita baixa.
A EON levanta 10,75 milhões de dólares para testar ligações ópticas orbitais a terabits por segundo. Menos escavadoras no fundo do mar, mais engenharia fina na órbita baixa.
Os cabos de fibra que cruzam os oceanos são a verdadeira espinha dorsal da internet, mas tratam‑nos como garantidos até algo correr mal. Quando um navio arranca um cabo ao largo da costa de África, não há backup mágico: há semanas de latência alta, rotas congestionadas e um navio de reparação a tentar operar a quilómetros de profundidade. A EON, Endeavor Optical Networks, acha que parte deste drama pode subir para a órbita baixa com lasers em vez de escavadoras submarinas.
A startup, fundada em maio, saiu agora da sombra com uma ronda seed de 10,75 milhões de dólares, liderada pela General Catalyst e Andreessen Horowitz. O plano é direto e ambicioso: pôr em órbita uma constelação de cerca de 20 satélites com terminais ópticos capazes de ligar continentes a velocidades que se aproximem dos 200 terabits por segundo dos cabos submarinos modernos. Não é mais um projeto de “internet via satélite” genérico, é capacidade dedicada para quem mexe petabytes por dia: hyperscalers de cloud e laboratórios de IA.
A diferença face às redes via satélite que conhecemos, de serviços como a Starlink, está na ordem de grandeza. Serviços atuais que usam comunicações laser espaço‑terra andam na casa dos 2,5 Gbps. A EON fala em 2,4 terabits por segundo logo à partida, com um satélite de demonstração, previsto para o fim de 2027, a prometer pelo menos 800 Gbps de downlink. Isto bate de frente com iniciativas bem maiores, como a TeraWave da Blue Origin, que prevê mais de 5.000 satélites e até 6 Tbps, mas com uma escala que torna o calendário muito mais longo.
O obstáculo não é a física do vácuo, é a atmosfera e o clima. Nuvens, turbulência e humidade destroem feixes laser com uma facilidade que um cabo no fundo do mar não conhece. A tal “receita secreta” da EON está na óptica e na forma como aponta e estabiliza os lasers, com gimbals de alta precisão e uma rede de estações em terra escolhidas a dedo, com redundância e previsão meteorológica em tempo real. É um tipo de engenharia que tem mais a ver com observatórios astronómicos do que com telecom clássica, e não é por acaso: o CTO vem da NASA e a equipa junta perfis de Google e do projeto de órbita baixa da Amazon.
Para Portugal e resto da Europa, isto interessa por uma razão simples: a nossa ligação ao resto do mundo depende de meia dúzia de rotas físicas vulneráveis, sobretudo no Atlântico Sul e em percursos longos como Europa‑Austrália. A EON diz que quer atacar precisamente rotas caras ou subservidas, como França‑Austrália ou ligações África‑América do Sul. É uma ambição que casa com a tendência de usar o espaço como infraestrutura crítica, a mesma lógica que está por detrás da corrida entre Starlink e outros operadores que já levou a movimentos como a falência da Hughesnet.
Há, no entanto, uma boa dose de sobriedade necessária aqui. Especialistas como Caleb Henry, da Quilty Space, lembram que os data centers exigem padrões de qualidade e redundância que o satélite só agora começa a tocar. E o histórico de prazos na indústria espacial é tudo menos brilhante. A vantagem da EON é a regra interna “sem problemas de física”: nada de data centers em órbita, só transporte de dados para um mercado que já existe e está a crescer. A desvantagem é a mesma de sempre: transformar powerpoints e rondas seed em hardware a funcionar em órbita, antes de gigantes como a Blue Origin ocuparem o espaço, não é propriamente tráfego ligeiro.
Fonte: TechCrunch
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