Um foguetão da SpaceX vai abrir uma nova cratera na Lua
Um estágio de cinco toneladas de um Falcon 9 vai embater na Lua a mais de 8.600 km/h. Lixo espacial para uns, experiência científica rara para outros.
Um estágio de cinco toneladas de um Falcon 9 vai embater na Lua a mais de 8.600 km/h. Lixo espacial para uns, experiência científica rara para outros.
Um pedaço de cerca de cinco toneladas de um foguetão Falcon 9 da SpaceX vai embater na Lua a 5.400 milhas por hora, mais de 8.600 km/h. Não é um ataque lunar, é lixo orbital que a gravidade decidiu reciclar à sua maneira.
O impacto está previsto para 5 de agosto, pelas 07h34 em Portugal continental, perto da cratera Einstein, na orla oeste da Lua. O objeto é o segundo estágio descartado de um Falcon 9 que em janeiro de 2025 lançou duas naves de alunagem, a Blue Ghost 1 da Firefly Aerospace e a Resilience da japonesa ispace. A trajetória foi identificada por Bill Gray, responsável pelo Project Pluto, que desenvolve software para rastrear objetos astronómicos, e que tem seguido este destroço desde então.
Segundo o estudo preliminar colocado no arXiv por uma equipa internacional liderada por Benjamin Fernando, do Los Alamos National Laboratory, o embate deverá vaporizar o booster, gerar um clarão breve, uma pluma de detritos e escavar uma nova cratera. Nada disto é totalmente novo, já houve impactos deliberados na Lua no passado, mas aqui há uma vantagem óbvia: os cientistas sabem de antemão a massa e a velocidade do objeto. Ou seja, ganham um evento de calibração para testar modelos usados em impactos naturais, onde esses dados são quase sempre aproximações.
A pluma de material expelido é outro alvo apetecível. Se for possível medir a sua composição, os investigadores ganham mais uma janela para perceber a estrutura daquela região específica da Lua. Com a NASA a falar em voltar a pôr astronautas no solo lunar a partir de 2028, e em construir uma presença mais permanente, estes números deixam de ser curiosidade académica. Servem para perceber que tipo de riscos reais representam impactos deste género para habitats, painéis solares, antenas e veículos em órbita baixa lunar.
Fernando sublinha precisamente isso: há o risco direto, ser atingido por fragmentos ou ficar temporariamente cego por um flash de luz, e o risco indireto, ser varrido por uma nuvem de poeira e detritos que pode interferir com sensores e eletrónica de naves em órbita. A ironia é óbvia. Quanto mais intensa for a corrida à Lua, mais lixo vamos deixar por lá, e esse lixo passa a ser ele próprio uma fonte de perigo. A história da órbita terrestre, cada vez mais saturada de sucata espacial, está a repetir-se a uns 384.000 km de distância.
Para já, a Europa e o resto do mundo vão acompanhar o impacto com telescópios e instrumentos, à procura de dados que ajudem a preparar futuras missões tripuladas. A ciência agradece o ensaio quase controlado. Mas convém não romantizar demasiado. Transformar cada pedaço de lixo espacial numa “oportunidade científica” é um truque de comunicação que mascara o problema estrutural: estamos a exportar maus hábitos para a Lua antes de lá chegar em força.
Fonte: ABC News
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