O regulador rodoviário dos Estados Unidos acaba de dar um passo que muitos construtores tradicionais ainda nem sabem como enquadrar. A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) aprovou a primeira isenção comercial para um robotáxi sem volante nem pedais, o veículo da Zoox, empresa de condução autónoma da Amazon. Na prática, isto significa que aqueles cubos sobre rodas, mais próximos de um pequeno eléctrico de tranvía do que de um carro, podem finalmente cobrar viagens.
A porta abriu-se com uma via legal criada em 2025, pensada para fabricantes de veículos automatizados (AV, do inglês Automated Vehicles) que dispensam controlos manuais clássicos. A Zoox foi a primeira a encaixar-se nessa brecha: a NHTSA concedeu-lhe uma isenção temporária que permite pôr a circular até 2.500 veículos por ano, durante dois anos. Em troca, a empresa aceita um regime de supervisão reforçada e “adaptável”, nas palavras da agência, que pode apertar à medida que a tecnologia mostra, ou não, maturidade.
O calendário é agressivo. A Zoox diz que já está a trabalhar com reguladores do Nevada e da Califórnia, os estados onde testa os seus veículos, para começar a cobrar bilhetes. Las Vegas será o primeiro palco para as viagens pagas, continuidade do piloto que arrancou em 2025. Em São Francisco, a operação continua em modo experimental, sem data pública para a transição para tarifas. O plano declarado da empresa passa por ir muito além destas duas cidades durante a vigência da isenção, com testes anunciados para Dallas, Phoenix, Austin e Miami.
Para quem segue a transição automóvel, isto não é apenas mais um anúncio de tecnologia “nivel 4”. É um sinal claro de que o regulador federal americano está disposto a assumir risco político para acelerar a automatização, ao contrário da abordagem europeia, mais cautelosa e fragmentada. Enquanto por cá discutimos o que acontece quando o carro morre na cloud antes de morrer na estrada, os EUA autorizam veículos que, por definição, não podem ser “tomados” por um condutor humano em emergência, porque simplesmente não têm comandos.
Há também o lado menos glamoroso: a escala aprovada, 2.500 veículos por ano durante dois anos, é quase irrelevante em volume de mercado. Serve pouco mais do que de laboratório móvel para a Amazon testar software, recolher dados de tráfego real e afinar modelos de negócio para transporte urbano. Para as cidades americanas envolvidas, é um ensaio público com impacto simbólico forte e impacto real ainda modesto. Para a Zoox, é uma oportunidade rara de pôr em estrada um conceito que muitos concorrentes mantêm em powerpoints e protótipos de salão.
Do lado europeu, a equivalência disto ainda está longe. A União Europeia continua focada em normas de assistência à condução progressivas e em requisitos de segurança fortes para qualquer automatização sem supervisão humana constante. A probabilidade de veres um cubo da Zoox a apanhar-te à porta em Lisboa nos próximos anos é quase nula. Mas o facto de a NHTSA ter formalizado um caminho regulatório específico para veículos sem volante vai pressionar outros reguladores a responder, se não por entusiasmo tecnológico, pelo menos para não ficarem dependentes de decisões tomadas em Washington. Como sempre na mobilidade, quem definir primeiro as regras tem meio futuro do sector na mão.
Fonte: Engadget
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