CIêNCIA

IBM compra laboratório HRL mesmo a tempo do seu chip quântico estrela

A HRL pôs a eletrónica de controlo dentro do frigorífico quântico e publicou na Nature. Se funcionar à escala, resolve o maior gargalo de hardware da computação quântica.

IBM compra laboratório HRL mesmo a tempo do seu chip quântico estrela

Seis dias antes de a HRL Laboratories aparecer na Nature com um processador quântico de silício que “se controla sozinho”, a IBM já tinha assinado a compra do laboratório. Não é só bom timing, é um sinal claro de onde a gigante quer apostar quando o hardware actual bater no tecto.

A HRL, propriedade da Boeing e da General Motors, trabalha num tipo de qubit de silício bem diferente dos qubits supercondutores que a própria IBM tem andado a vender ao mundo. O problema que está em causa é conhecido por toda a gente no sector: cada qubit precisa de cabos próprios desde a eletrónica a temperatura ambiente até ao frigorífico dilucional, lá em baixo, a milésimos de grau acima do zero absoluto. Com centenas de qubits já é um molho de fios quase ingerível, com milhões simplesmente não dá. O “wiring problem” é menos glamoroso do que falar em algoritmos, mas é isto que manda.

O truque da HRL foi meter o cérebro lá dentro. Construíram um chip de controlo que funciona a cerca de 4 kelvin, instalado dentro do próprio frigorífico, ao lado dos qubits de silício. Esse chip gera todos os sinais de controlo para um dispositivo de 18 qubits e, mais importante, executa correção de erros em tempo real sem pedir ajuda à eletrónica cá de fora. Segundo a empresa, é a primeira vez que se demonstra correção de erros totalmente autónoma neste tipo de qubit, e os dados não parecem marketing: erros de controlo dez vezes mais baixos do que qualquer demonstração anterior e operações abaixo de um microssegundo.

Fica a faltar resolver o detalhe óbvio: como é que se põe eletrónica “quente” junto de qubits que precisam de ficar quase a zero absoluto sem estragar tudo. Aqui entra outro componente-chave, um cabo em fita supercondutor que leva centenas de sinais até aos qubits e praticamente nenhum calor. É engenharia de frigorífico, não de algoritmo, mas é isto que pode ditar se a computação quântica sai do laboratório ou fica como brinquedo caro para meia dúzia de grupos de investigação e megaclouds a tentar vender tempo de máquina, o género de infra-estrutura pesada que já vemos hoje em IA generativa e grandes data centers.

Há um pormenor que distingue a HRL de muitos projectos quânticos de garagem dourada: a obsessão com ser fabricável. O chip de qubits, o cabo e o controlador usam processos standard de semicondutores, nada de linhas de produção exóticas. A mensagem é simples, e tem eco na história dos computadores clássicos: não basta ter o hardware mais rápido, é preciso que saia barato e em volume das mesmas fábricas que já produzem tudo o resto. Isto interessa tanto a um IBM ou a um Google como a qualquer país que queira ter algum controlo sobre o seu futuro computacional em vez de ficar eternamente a comprar caixas negras.

Para a IBM, que passa anos a evangelizar qubits supercondutores, comprar um laboratório focado em qubits de silício é um seguro de vida e uma admissão tácita de que ninguém sabe ainda qual a arquitectura vencedora. O facto de o artigo sair em cima do anúncio de aquisição ajuda a narrativa, mas o que conta é outra coisa: o primeiro passo sério para tirar a computação quântica da teia de cabos e pôr a correção de erros colada ao hardware. Quando o problema é escalar de centenas para milhões de qubits, o salto não é de teoria, é de engenharia fria.

Fonte: The Next Web

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