China acelera litografia DUV e a ASML leva um abanão em bolsa
Relato de produção em massa de máquinas DUV na China cortou 6,5% ao valor da ASML. Os controlos de exportação podem ter criado o concorrente que tentavam travar.
Relato de produção em massa de máquinas DUV na China cortou 6,5% ao valor da ASML. Os controlos de exportação podem ter criado o concorrente que tentavam travar.
As ações da ASML caíram até 6,5% em Amesterdão depois de o site The Information ter avançado que uma empresa de Xangai começou a produzir em massa máquinas de litografia DUV de imersão. Tradução rápida: a China terá uma alternativa caseira a um dos tipos de equipamento que a Holanda e os EUA lhe proibiram de comprar.
A ASML não comentou o assunto, mas o mercado não esperou por comunicado. A fatia da China nas vendas líquidas de sistemas da empresa desceu para 14% no segundo trimestre, vinda de 19% no primeiro. Parte é simples efeito dos controlos de exportação aos sistemas NXT:2050i e NXT:2100i, impostos por Haia sob pressão de Washington. Parte começa a cheirar a substituição, chipmakers chineses a virar-se para outro lado porque o holandês passou a ser demasiado incerto.
Convém pôr as classes de máquinas em perspetiva. Para os padrões da própria ASML, litografia DUV já não é o topo de gama. A joia da coroa é o EUV, extreme ultraviolet, que a China nunca pôde comprar e ainda não consegue replicar. Mas o detalhe que interessa à indústria é menos glamoroso: com DUV fazes a maioria dos chips que contam na vida real, dos carros conectados aos telemóveis, passando por muitos aceleradores de IA para inferência. Se Pequim fecha o buraco na oferta de DUV, o impacto na fronteira tecnológica é limitado, mas o impacto na conta de resultados da ASML é imediato.
Há aqui um sabor a ironia de manual de geopolítica. Os controlos de exportação foram vendidos como forma de abrandar o avanço chinês nos semicondutores. Ao cortarem o acesso ao fornecedor dominante, deram a Pequim um incentivo forte para investir a sério em capacidade doméstica. Se a tal empresa de Xangai tiver mesmo posto DUV de imersão em linha de produção, os controlos não travaram a China, apenas encurtaram o tempo até ela deixar de precisar da ASML nessa gama.
Para a Europa, e para quem em Portugal vive agarrado a gadgets e carros cheios de chips, o sinal é misto. Uma China mais autónoma em DUV pode significar menos dependência de um único fabricante europeu, logo menos vulnerabilidade a sanções cruzadas. Mas também fragiliza uma das poucas empresas em que a UE manda no jogo global de tecnologia dura. Quando se fala de “soberania digital” em Bruxelas, fala-se em grande parte da ASML. Se o segmento DUV começar a escapar, sobra sobretudo o EUV. E é perigoso viver de um só trunfo.
Nos próximos trimestres o gráfico a seguir não é o do NASDAQ, é o mapa das restrições de exportação. Os EUA querem cortar totalmente o acesso da China a equipamento de fabrico de chips e há propostas como o MATCH Act a tentar alinhar Holanda e Japão à força. Se Pequim já tiver DUV viável, o poder de chantagem desses controlos encolhe. O mercado olhou para a queda de 6,5% e fez o óbvio: atualizou o risco, menos regulador, mais concorrência direta. A globalização dos semicondutores continua, só mudou o lado da mesa onde se desenha o próximo nó de transistor.
Fonte: The Next Web
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