CIêNCIA

Há 15 anos que o último Shuttle pousou. E a NASA ainda improvisa

Atlantis aterrou pela última vez em 2011. Quinze anos depois, o plano de substituição comercial da NASA continua mais remendado do que redundante.

Há 15 anos que o último Shuttle pousou. E a NASA ainda improvisa

Há 15 anos, o Space Shuttle Atlantis pousou na pista do Kennedy Space Center e fechou um capítulo que a NASA ainda não conseguiu substituir com verdadeiro conforto. A missão STS-135, em julho de 2011, estava pensada como plano de emergência, acabou promovida a despedida oficial de um programa que nunca foi tão seguro como vendido, mas que dava aos EUA algo que hoje não têm: acesso próprio e regular ao espaço com margem para falhar.

Originalmente designada STS-335, a missão era o chamado Launch On Need, o voo de resgate previsto para a STS-134, da Endeavour, uma prática instituída depois da tragédia do Columbia. A lógica era simples: se um Shuttle ficasse danificado em órbita, outro poderia ser lançado em modo socorro. Para isso a NASA criou as designações STS-3xx, como STS-317 ou STS-318, sempre em fundo de gaveta à espera de azar. Em teoria, o programa devia ter acabado em STS-134. Na prática, políticos e gestores decidiram esticar o elástico mais uma vez.

Esse último voo já não tinha rede. Não havia Shuttle de reserva na sombra, o programa estava a ser desligado, e a única saída em caso de problema sério seria trazer a tripulação de volta em cápsulas Soyuz russas a partir da Estação Espacial Internacional (ISS). A própria tripulação foi encolhida para quatro pessoas, algo que não se via desde 1983. O comandante Christopher Ferguson acabaria por ir para a Boeing, para o programa Commercial Crew. O piloto Douglas Hurley ficaria ligado ao início de outra era, ao pilotar em 2020 o primeiro voo tripulado da Crew Dragon da SpaceX. Sandra Magnus e Rex Walheim fecharam o quarteto que escreveu a última linha do Shuttle.

O plano da NASA parecia razoável no papel: acabar com um sistema caro e complexo, e apostar em duas empresas privadas para criar redundância e reduzir risco. Na prática, entre 2011 e 2020, os EUA passaram a pagar à Rússia para pôr astronautas na ISS. A SpaceX só levou humanos à estação em 2020, a Boeing só conseguiu um voo tripulado em 2024, e correu tão mal que a cápsula Starliner regressou vazia, com a tripulação a ser trazida num voo posterior da SpaceX. Hoje, ainda não há data firme para a próxima ida de humanos à ISS na cápsula da Boeing, depois de a NASA ter cortado parte do acordo comercial.

Resultado: em vez de dois fornecedores e redundância, a agência espacial depende quase só da SpaceX. E mesmo aí há prazo de validade. A Crew Dragon é reutilizável, mas a empresa não planeia construir mais unidades e estima cerca de 15 voos por cápsula, com revisões pelo meio. Em teoria chega para aguentar a ISS e transição para o que vier a seguir. No longo prazo, a aposta chama-se Starship, o foguetão pesado da SpaceX que já protagonizou mais do que um susto e adiamento, como se viu no falhanço no voo 13 que baralhou o calendário lunar da própria NASA.

Entretanto, os próprios Shuttles são agora peças de museu montadas como cenários de ficção científica: o Atlantis encenado em órbita na Florida, a Endeavour a ser empilhada na Califórnia como se estivesse pronta a lançar. O contraste é curioso. O hardware que já não voa está impecavelmente exposto. O sistema que o devia ter substituído continua a ser uma manta de retalhos entre contratos comerciais, atrasos e foguetões que ainda tentam provar que são mais do que demonstrações em direto no YouTube.

Fonte: The Register

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