Forbidden Solitaire mostra porque até um CD-ROM barato merece museu
Um falso clássico de 90s que nunca existiu, mas acerta em cheio numa verdade desconfortável: tratamos jogos como lixo descartável quando são, na prática, arquivo cultural.
Um falso clássico de 90s que nunca existiu, mas acerta em cheio numa verdade desconfortável: tratamos jogos como lixo descartável quando são, na prática, arquivo cultural.
Forbidden Solitaire é um jogo novo no Steam, mas veste-se como se tivesse sido arrancado a uma prateleira poeirenta da Vobis em 1996. CD-ROM, fantasia rasca, vídeo granuloso, olhos de feiticeiro a explodir em FMV. Toda a encenação é fabricada, claro, mas o truque funciona por uma razão simples: reconhecemos ali uma época, um tipo de objecto, uma cultura inteira que hoje está enfiada em caixas no sótão ou, pior, em caixotes do lixo eletrónico.
O jogo é apresentado como obra de um estúdio fictício, Heartblade Interactive, envolto em boatos, histeria moral e lendas urbanas. Na realidade é obra da Night Signal Entertainment, o estúdio por trás de Home Safety Hotline, e da Grey Alien Games, veteranos do puzzle de cartas. É meio pastiche, meio horror de “media encontrado”, meio jogo de cartas a sério. E é precisamente por funcionar tão bem neste terceiro ponto, como variação inventiva de solitário, que o resto bate: não é só um meme sobre nostalgia, é um produto bem desenhado a brincar com a ideia de património.
Quem cresceu com o ZX Spectrum, Amiga, MS-DOS ou até já com o Windows 95 em português vai reconhecer o padrão. Capas exageradas que prometiam mundos e fundos, screenshots minúsculos em revistas, boatos de segredos escondidos, disquetes copiadas na escola, CDs em revistas de informática do quiosque. Muito desse entulho cultural perdeu-se. Não porque não tivesse valor, mas porque a indústria tratou estes jogos como descartáveis e a legislação também não ajuda quem quer arquivar software antigo com ROMs, cracks e tudo o resto que fazia parte da experiência.
Forbidden Solitaire simula um “clássico maldito” de 90s que nunca existiu, e no entanto sentimos que podia perfeitamente ter existido. Essa fricção é o que interessa. Se conseguimos ter saudades de um CD-ROM imaginário, talvez o problema não seja a falta de qualidade dos jogos da altura, mas o vazio deixado pela ausência de preservação séria. Em música e cinema, já ninguém discute que é preciso restaurar, catalogar, exibir. Em jogos continuamos presos a licenças caducadas, lojas digitais que fecham e relançamentos seletivos, muitas vezes mutilados, ao sabor de quem tem os direitos de marca este ano.
Para quem vive em Portugal, isto tem uma camada extra: grande parte da nossa memória de videojogos passou por edições locais baratas, colecções da imprensa, clubes de vídeo, lojas de informática de bairro. Coisas com tiragens minúsculas, manuais traduzidos à pressa, às vezes até dobragens surrealistas. Tudo isso é material de arquivo. Quando um jogo como Forbidden Solitaire recria a estética CD-ROM com tanto cuidado, lembra-nos que esse lixo visual não é só piada. É linguagem gráfica de uma era. Se não a guardamos, reescrevemos a história como se todos os anos 90 fossem só Nintendo, PlayStation e meia dúzia de clássicos de PC em caixa grande.
Não é preciso gostar particularmente de solitário para perceber a ponta de acusação aqui. Um pequeno jogo de cartas no Steam está a fazer mais pela discussão sobre preservação do que muitos grandes editores que adoram falar de “história da marca” enquanto desligam servidores e retiram jogos de lojas digitais. Forbidden Solitaire brinca com o mito do jogo proibido, mas o que está mesmo em risco não é um título amaldiçoado, é todo um período cultural a desaparecer em silêncio, um CD riscado de cada vez.
Fonte: Eurogamer
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