CIêNCIA

Corrida de 1.000 km onde o único combustível é o Sol

O Solar Car Challenge faz 30 anos a pôr adolescentes a desenhar, construir e guiar carros solares em estrada aberta. Isto diz mais sobre o futuro da energia do que muitos congressos “verdes”.

Corrida de 1.000 km onde o único combustível é o Sol

No Texas, dezenas de equipas de adolescentes vão passar cinco dias a atravessar o estado em carros que parecem naves improvisadas. Não há gota de gasolina nem carregador rápido: o único combustível é o Sol. É o Solar Car Challenge, uma prova de cerca de 1.000 km em estrada aberta, feita com veículos desenhados e construídos pelos próprios alunos com peças de catálogo e muita impressora 3D.

O formato é simples e brutal: ganha quem acumular mais quilómetros percorridos durante a prova. Nada de arrancadas espetaculares, é gestão de energia pura, a cada nuvem que passa. Os carros são mais Frankensteins fotovoltaicos do que protótipos polidos de laboratório, mas é precisamente aí que está a graça. A engenharia não fica num PowerPoint, rola em asfalto quente, com vento lateral e camiões a passar ao lado.

Este ano marca o 30.º aniversário do Solar Car Challenge, criado em 1993 pelo educador texano Lehman Marks, farto de aulas de STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) reduzidas a manuais e testes de escolha múltipla. Percebeu rapidamente que pôr alunos do secundário a competir com universidades seria um massacre, por isso montou uma competição só para escolas. O programa não é só soldar painéis solares: inclui gestão de projeto, orçamento, angariação de fundos e, claro, engenharia suficiente para construir um veículo que não se desfaça à primeira lomba.

A parte curiosa, vista de cá, é que esta cultura de meter jovens a sujar as mãos com tecnologia limpa continua mais viva em algumas secundárias norte-americanas do que em muitos programas formais de transição energética. Em Portugal fala-se muito de descarbonização, mas a ligação entre escola, oficinas e estrada é quase inexistente. Temos boa engenharia nas universidades e bons projetos de competição em nível académico, mas pouco que ponha alunos de 16 anos a decidir quantos painéis cabem num chassis e quanto peso vale a pena sacrificar por mais bateria.

Também é um lembrete de escala. Enquanto governos discutem metas para 2030 e empresas vendem “mobilidade sustentável” em campanhas de marketing, miúdos atravessam um estado inteiro apenas com energia que cai do céu. A tecnologia em si não é ficção científica, é solar fotovoltaico básico, baterias decentes e muita disciplina. Quando olhamos para projetos como o primeiro espelho orbital para refletir luz solar à noite, de que falámos no contexto da decisão da FCC, fica claro que o problema já não é tanto falta de ideias, é falta de vontade política e de prioridade no currículo.

Não é preciso copiar o Texas ao detalhe, mas uma versão ibérica de um desafio destes, com escolas portuguesas e espanholas a cruzar a Península em carros solares desenhados em oficinas de escola, faria mais pela literacia energética do que muitos planos estratégicos em PDF. Até lá, continuamos a aplaudir à distância enquanto um punhado de adolescentes, do outro lado do Atlântico, demonstra em estrada aquilo que os discursos sobre o clima ainda andam a prometer.

Fonte: The Verge

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