Um drone de 40 gramas a abater um insecto em pleno voo soa a vídeo de laboratório para geeks de robótica. Mas a Tornyol Systems leva isto muito mais a sério: apresenta o micro-drone Tornyol como passo concreto “em direcção à erradicação completa dos mosquitos”. O primeiro alvo filmado não foi um mosquito, mas uma traça, o que não impediu a empresa de transformar o clip em manifesto tecnológico.
O Tornyol usa sensores dignos de um para-choques de automóvel, do tipo sonar/ultrassons de estacionamento, combinados com visão por computador e navegação autónoma. A ideia é simples na teoria e difícil na prática: detectar um insecto em voo, estimar trajectória em fracções de segundo e interceptá-lo com precisão, a até cerca de 8 metros de distância. Tudo isto com electrónica leve o suficiente para caber num corpo de 40 g que tem de se manter estável no ar enquanto acelera em micro-investidas.
O co-fundador Alex Toussaint divulgou o vídeo do “primeiro kill ar-ar” no X, celebrando o marco como um grande passo rumo a um mundo sem mosquitos. No site da empresa, a retórica sobe de tom: os mosquitos são “um dos piores inimigos da humanidade”, responsáveis por mais de 700 000 mortes por ano e mais de 700 milhões de infecções, desde malária a dengue e vírus do Nilo Ocidental. A ambição é clara, usar enxames de drones pequenos, baratos e rápidos para caçar mosquitos de forma selectiva, em vez de pulverizar insecticida às cegas.
Do ponto de vista técnico, o feito tem mérito. Acertar num alvo minúsculo, errático e voador é um problema de controlo e detecção bastante mais exigente do que seguir pessoas num parque com um drone de consumo. A Tornyol mostra que, com sensores simples e processamento suficiente a bordo, é possível ter um “caça-mosquitos” autónomo. Mas transformar um vídeo com uma traça em prova de que vamos erradicar mosquitos é outro campeonato, e aí o discurso da empresa roça mais o marketing do que a ciência.
Há ainda um elefante no quarto: implicações ecológicas e éticas. Erradicar totalmente uma espécie é sempre uma promessa pesada, mesmo quando falamos de um vector de doença tão problemático como o mosquito. A discussão científica actual tende a ser mais sobre controlo da população e redução de transmissão de doenças, usando estratégias como mosquitos geneticamente modificados, do que sobre apagá-los do mapa. Substituir pesticidas por enxames de micro-drones não resolve por si só questões como consumo energético, segurança, ruído ou impacto noutras espécies de insectos que acabem no caminho.
Para já, o Tornyol é sobretudo uma demonstração de engenharia com um spin de ficção científica: imaginar noites de verão sobrevoadas por pequenos interceptores a proteger um bairro de Lisboa ou uma aldeia no Brasil. Entre um clip viral com uma traça abatida e um sistema de saúde pública baseado em drones vai um longo caminho de regulação, estudos de campo e dinheiro sério. Mas a ideia de pegar em sensores de estacionamento e transformá-los em arma de precisão contra mosquitos mostra bem como a tecnologia gosta de reciclar peças banais para fins cada vez menos banais.
Fonte: Toms Hardware
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