Sony enfrenta queixa antitrust no México pelo fim dos discos PS
Deputados mexicanos querem travar a transição total da PlayStation para digital, acusando a Sony de matar a concorrência e o mercado de usados.
Deputados mexicanos querem travar a transição total da PlayStation para digital, acusando a Sony de matar a concorrência e o mercado de usados.
A novela dos discos da PlayStation ganhou um novo capítulo fora do eixo EUA-Europa. No México, uma deputada federal e um senador vão apresentar uma queixa formal à autoridade da concorrência contra a decisão da Sony de acabar com a produção de jogos em disco até janeiro de 2028.
Segundo o site Levelup, Iraís Reyes e Luis Donaldo Colosio, ambos do partido Movimiento Ciudadano, preparam uma denúncia junto da Comissão Federal de Concorrência Económica mexicana. Curiosamente, vão fazê-lo como cidadãos privados, não em nome do partido, o que diz muito sobre o peso político que atribuem ao tema: menos sinal de guerra partidária, mais de cruzada de consumo. Reyes já se tinha destacado ao contestar um imposto de 8 por cento sobre plataformas digitais em 2025, portanto isto não é um soundbite ocasional.
O ponto central da queixa é simples e nada teórico: sem discos, quem tem uma PlayStation deixa de poder escolher onde compra jogos. Passa a estar preso à PlayStation Store. Nada de caber à Worten ou à FNAC, versão mexicana, puxar pelos descontos de fim-de-semana, nada de bundles físicos mais agressivos. E, sobretudo, nada de mercado de segunda mão, trocas ou aquela economia paralela que sempre manteve o hobby minimamente acessível para quem não dá 80€ por lançamento. Em Portugal já sentimos o aperto quando olhamos para a forma como a Sony tem empurrado o digital, de GTA VI sem steelbook nem disco às edições especiais que são basicamente um código numa caixa cara.
Na visão dos políticos mexicanos, isto transforma a Sony no único distribuidor real de jogos em consola PlayStation. A queixa pede que os reguladores avaliem se isto não é, na prática, comportamento monopolista e potencial violação da lei mexicana da concorrência. O argumento não é só “pelo bem dos jogadores”. É pelos retalhistas que vivem da margem nos jogos físicos e pelo efeito de matar a concorrência de preços. Quando só há uma loja, a noção de promoção passa a ser o que o dono da loja decidir.
Reyes e Colosio puxam ainda um exemplo que a própria Sony deu de bandeja: a remoção de mais de 500 filmes e séries das bibliotecas digitais na PlayStation, sem reembolsos. Se a empresa já mostrou que, com controlo total do catálogo, pode apagar conteúdos comprados, o que impede que use a mesma lógica em jogos daqui a cinco ou dez anos, quando tudo for digital e não houver discos para resgatar no OLX? A frase de Reyes resume bem a crítica: a Sony torna-se “árbitro e jogador”. E quando a mesma entidade marca as regras e beneficia delas, a regulação costuma bater à porta mais cedo ou mais tarde.
Há ainda um ângulo social que raramente entra nas keynotes cheias de trailers em 4K: prender tudo a uma loja digital significa excluir quem vive em zonas com internet fraca, com limites de dados móveis ou sem forma de pagar com cartão. Vimos uma versão disto com Marvel Tōkon bloqueado em 132 países por causa da PSN. Aqui o risco é mais profundo: uma consola de 500€ pode tornar-se um pisa-papéis caro dependendo do teu código postal e da tua conta bancária.
No meio disto, a própria Sony já veio dizer que ainda vai prensar discos depois de 2028, mas com limites bem definidos, como explicámos quando detalhámos esse recuo táctico em Sony ainda vai prensar jogos em disco depois de 2028. A iniciativa mexicana mostra outra coisa: a estratégia “digital ou nada” deixou de ser só um debate de fóruns e passou a dossiê regulatório. Se mais países começarem a olhar para a PlayStation Store como monopólio privado e não como simples loja online, a transição que a Sony quer acelerar pode acabar a ser redesenhada em tribunal, não em apresentações de investidores.
Fonte: Eurogamer
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