CIêNCIA

Oratomic levanta 275M€ para um computador quântico com 20 mil qubits

Startup nascida em Caltech promete um computador quântico de “escala útil” com muito menos qubits que a concorrência. Aposta é alta, e o risco também.

Oratomic levanta 275M€ para um computador quântico com 20 mil qubits

Há cheques grandes e depois há o que a Oratomic acabou de receber: 300 milhões de dólares, cerca de 275 milhões de euros, numa Série A para construir um computador quântico dito “útil” com apenas 10 a 20 mil qubits. Em 2026, isto é quase um voto de fé institucionalizado em física experimental.

A empresa nasceu em torno de físicos de Caltech que usam lasers como “pinças ópticas” para segurar átomos individuais e organizá-los em rede. A novidade não é o truque de laboratório, é a matemática por trás da correcção de erros. Segundo a Oratomic, o seu esquema permite um computador fault-tolerant com ordens de grandeza menos qubits do que os milhões que muitos concorrentes consideram necessários. Numa área em que a decoerência e o ruído comem resultados ao pequeno-almoço, isto é a diferença entre slide de conferência e máquina útil.

A decisão é radical: nada de máquinas NISQ, a sigla para noisy intermediate-scale quantum (computadores quânticos intermédios e ruidosos) que hoje são mostradas a universidades e grandes empresas como brinquedo caro de I&D. A Oratomic recusa gastar tempo a vender protótipos pouco fiáveis e posiciona-se directamente na corrida ao primeiro sistema de escala “utilitária”, com correcção de erros séria. É uma resposta frontal ao modelo de players como Rigetti ou IonQ, que vivem de contratos de acesso a hardware experimental enquanto esperam pela tal máquina do futuro.

O alvo implícito é a PsiQuantum, avaliada em 7 mil milhões de dólares e que também quer saltar a fase NISQ, prometendo um computador de um milhão de qubits já no próximo ano. O CEO da Oratomic, Dolev Bluvstein, diz que o seu caminho é mais simples e barato: todos os blocos fundamentais já foram demonstrados em laboratório a menor escala, agora é “só” escalar. É uma frase optimista para um problema que há décadas recusa ser apenas engenharia. Mas a confiança convenceu pesos pesados como ARCH Venture Partners, Spark Capital, Khosla Ventures, Bezos Expeditions e companhia a assinarem cheques.

Para contexto, a vaga de dinheiro em quântica não é caso isolado. Este ano vimos a Infleqtion e a Quantinuum ir para bolsa nos EUA, e na Europa a entrada da IQM na Nasdaq a testar o apetite por hardware quântico europeu, em paralelo com projectos financiados por Bruxelas como o da QuantumDiamonds focada em novos chips. O capital percebeu que, se um destes esquemas de correcção de erros funcionar, abre-se a porta a impactos muito concretos em biotecnologia, química, logística, IA e criptografia. Da simulação de moléculas ao ataque a chaves criptográficas actuais, o potencial de disrupção é real, mesmo que o calendário seja tudo menos claro.

O investidor Vinod Khosla foi ao X gabar-se de que esta é a maior aposta inicial de sempre do seu fundo. É um bom soundbite, mas não muda o essencial: continuar a ser quase impossível para quem está fora do círculo avaliar a distância entre “já demonstrámos todos os blocos” e um computador quântico útil em produção. Para quem programa em Portugal ou gere infra-estrutura na banca europeia, isto ainda não mexe em nada. Mas quando o dinheiro começa a alinhar-se desta forma, vale a pena seguir as equações. Não porque a máquina vá aterrar no teu data center amanhã, mas porque alguém está a pagar muito caro para que um dia deixe de ser ficção científica.

Fonte: TechCrunch

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