Como um arquivo digital palestiniano tenta ser impossível de apagar
Perante décadas de pilhagem e destruição física, um museu na Cisjordânia está a espalhar pela internet meio milhão de registos para proteger a memória palestiniana.
Perante décadas de pilhagem e destruição física, um museu na Cisjordânia está a espalhar pela internet meio milhão de registos para proteger a memória palestiniana.
Quando o exército israelita destruiu, em poucos dias, galerias, museus e arquivos em Gaza depois de outubro de 2023, a lição foi brutal: qualquer edifício é frágil. A resposta do Museu Palestiniano, na aldeia de Birzeit, foi assumir essa fragilidade como dado adquirido e atacar o problema noutro plano, o digital.
Segundo o diretor do museu, o artista visual Amer Shomali, cerca de 80 por cento das coleções nacionais palestinianas foram já saqueadas, destruídas ou estão sob controlo israelita. Ao mesmo tempo, relatórios como o do Applied Research Institute-Jerusalem apontam para milhares de sítios arqueológicos da Cisjordânia ocupados ou reclassificados por Israel. A ofensiva deixou de ser apenas militar, passou por completo ao território da memória. E é aí que entra a tecnologia.
Desde 2018 que o Museu Palestiniano fala de um “arquivo inassaltável”: o Palestine Museum Digital Archive, um repositório online que tenta tornar a cultura palestiniana independente de qualquer fronteira física. Começou de forma quase analógica, com equipas a bater à porta de famílias na Cisjordânia para digitalizar fotografias, cartas, diários, mapas, filmes e documentos oficiais guardados em gavetas e caixas. Hoje, esse arquivo aberto já soma mais de 500 mil itens digitalizados, acompanhados de metadados, descrições e traduções, muitos deles materiais que nunca teriam entrado num museu clássico.
Do ponto de vista técnico, a ambição é clara: reduzir ao mínimo qualquer ponto único de falha. A coleção está replicada em vários servidores, com cópias de segurança distribuídas e infraestruturas redundantes. O objetivo é simples, mas duro: assumir que edifícios podem ser bombardeados, redes locais podem ser cortadas e governos podem tentar confiscar hardware, por isso a sobrevivência do acervo tem de depender de múltiplas jurisdições e de uma comunidade alargada. Há uma pequena equipa a tempo inteiro focada em digitalização, catalogação e investigação, apoiada por voluntários e por financiamento da diáspora, de universidades e de fundações culturais europeias.
O projeto não é só tecnologia, é também linguagem. Muitas das fontes históricas estão em árabe otomano ou em caligrafias antigas, difíceis de processar até para académicos. O museu estuda agora um bot treinado para ler esse árabe otomano, uma mistura de reconhecimento ótico de caracteres e modelos de linguagem que pode acelerar muito a transcrição. Em teoria, o mesmo tipo de ferramenta poderia ser aplicado a arquivos coloniais portugueses, franceses ou britânicos. Na prática, esta é uma das raras aplicações de IA que não se limita a gerar conteúdo novo, mas tenta salvar o que já existe antes que desapareça.
Para quem lê a partir da Europa, a relevância é dupla. Por um lado, a infraestrutura que permite este arquivo passa muitas vezes por centros de dados e universidades europeias, com todas as implicações de privacidade e de direito de autor. Por outro, a abordagem palestiniana é um manual de sobrevivência para qualquer comunidade sob risco, seja por guerra, seja por catástrofe climática. A digitalização acompanhada de cópias espalhadas por vários países não é romantismo tecnológico, é a única forma prática de uma coleção sobreviver a fronteiras, anexações de facto e legislação feita à medida.
Num mundo em que plataformas centralizadas apagam conteúdos com um clique quando alguém marca “viola as regras”, a insistência num arquivo aberto, com controlo local mas infraestrutura distribuída, é quase subversiva. A memória palestiniana não fica a salvo por existir num servidor. Fica ligeiramente mais difícil de silenciar. À escala de quem tenta apagar um povo da história, essa diferença não é abstrata, é profundamente política.
Fonte: Wired
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