BitTorrent faz 25 anos: da revolução P2P ao embaraço corporativo
O protocolo que assustou Hollywood continua vivo, mas a empresa por trás dele tropeçou entre negócios falhados, criptomoedas oportunistas e um legado que resiste nos bastidores da net.
O protocolo que assustou Hollywood continua vivo, mas a empresa por trás dele tropeçou entre negócios falhados, criptomoedas oportunistas e um legado que resiste nos bastidores da net.
Quando Bram Cohen escreveu para uma mailing list de entusiastas de peer-to-peer, em julho de 2001, a frase parecia banal: “A minha nova app, BitTorrent, está funcional, vejam aqui.” Não explicou o que era. Não precisava. A internet ia tratar disso por ele. Em poucos anos, o nome BitTorrent passava a sinónimo de pirataria à escala global, tema de debates em Hollywood e desculpa oficial para muita ligação lenta nos tempos do ADSL.
O truque não era magia, era engenharia. Em vez de um servidor a despejar um ficheiro gigante para milhares de pessoas, Cohen refinou a ideia de swarming distribution: o ficheiro é partido em pequenos blocos, e cada pessoa que descarrega passa também a enviar blocos a outros. Todos são cliente e servidor ao mesmo tempo. O protocolo recompensa quem partilha mais e pune quem só quer sacar, um pequeno comentário político sobre o egoísmo digital escondido numa implementação de rede.
Enquanto Napster, Kazaa, Grokster ou LimeWire eram varridos em tribunal, um a um, BitTorrent crescia. Não havia um grande servidor central para encerrar, havia um protocolo espalhado por milhares de clientes e por trackers operados por terceiros. No pico, estudos apontavam para BitTorrent como responsável por cerca de metade do tráfego P2P global e perto de um terço de todo o tráfego de internet em 2004. Se andaste a sacar séries em .avi com legendas .srt duvidosas, é provável que o teu ISP tenha odiado silenciosamente cada seed que deixaste aberto.
O paradoxo está no nome. Há o BitTorrent protocolo, adoptado por hackers, comunidades open source e, ironicamente, por empresas legítimas para distribuir ficheiros pesados de forma barata. Há o BitTorrent “app”, hoje mais uma família de clientes do que um produto único. E houve o BitTorrent empresa, que tentou transformar esta ubiquidade em dinheiro e falhou com uma consistência quase didáctica: tentativas de monetizar clientes com anúncios agressivos, bundles suspeitos, parcerias mal explicadas e, mais tarde, um mergulho pouco digno no mundo das criptomoedas.
Para Hollywood, BitTorrent foi durante anos o vilão perfeito. Há uma certa conveniência em culpar um protocolo por tudo o que falhou na transição para o digital, em vez de admitir que vender DVDs a 20€ e estreias faseadas por país era um convite aberto à pirataria. A verdade é menos romântica: BitTorrent encheu o vazio deixado por uma indústria lenta, tecnofóbica e interessada em controlar janelas de exibição em vez de servir quem queria ver filmes e séries no dia em que ouvia falar deles.
Vinte e cinco anos depois, a história é menos épica mas mais relevante. O streaming legal tomou conta do discurso, as perseguições mediáticas à pirataria abrandaram, mas o protocolo continua instalado em milhões de máquinas, a alimentar tanto torrents de Linux como temporadas inteiras de anime. Em Portugal, com serviços a fragmentar catálogos e a subir preços, o incentivo para voltar ao ícone azul não desapareceu, apenas deixou de ser assunto de conversa. BitTorrent já não é a revolta adolescente da internet, é o encanador silencioso que continua a tratar da água que os gigantes do entretenimento fingem não ver.
Fonte: The Verge
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