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Rússia manda cidadãos trocar de iPhone para Android após bloqueios da Apple

O Kremlin está furioso com a Apple por bloquear apps-chave russas, mas a solução oficial resume-se a um conselho estranho: larga o iPhone e vai para Android.

Rússia manda cidadãos trocar de iPhone para Android após bloqueios da Apple

A Rússia passou anos a pedir à Apple que removesse aplicações do iOS. Agora que a Apple começou a bloquear apps russas consideradas “boas”, o Kremlin está a descobrir o outro lado do fecho de jardim. A empresa retirou da App Store russa o VKontakte (o “Facebook russo”) e o mensageiro estatal Max. Instalações existentes continuam a funcionar, mas sem notificações push, que é uma forma suave de tornar um serviço moderno quase inútil.

Os números ajudam a perceber o contexto. Segundo o App Store Transparency Report de 2025 da própria Apple, a Rússia liderou destacados os pedidos de remoção de apps: 1.213 num ano, muitos deles VPNs usadas para furar a censura estatal. O objetivo é claro, construir uma Internet doméstica mais controlada e mais amiga da vigilância. Mas esse controlo depende também de plataformas globais como a Apple aceitarem fazer o trabalho sujo. Quando a maré muda, o Estado russo perde uma ferramenta conveniente.

O bloqueio de VK e Max não veio do nada. O mensageiro Max é descrito por media no exílio como um pesadelo de vigilância, com direito a rede neural a escutar conversas. VK é peça central no esforço de Moscovo para ter alternativas nacionais a Facebook, WhatsApp e companhia. São precisamente os serviços que o governo menos quer ver limitados. Daí a indignação pública, com o porta-voz Dmitry Peskov a falar em decisões “bizarrras” e a sugerir que a Apple já não é de confiança como prestador de serviços comerciais.

O tom oficial da VK Group segue a mesma linha. A empresa acusa a Apple de remover as apps “sem aviso ou explicação”, insiste que não está em listas de sanções e diz que a Apple tem pareceres jurídicos que o comprovam. É a típica dança em torno de sanções ocidentais, onde as big tech preferem cortar no excesso de zelo do que arriscar uma multa. A Apple não comenta casos concretos, mas desde a invasão da Ucrânia que vai apertando o cerco a serviços russos, entre suspensões de vendas de hardware e limitações na App Store.

Perante isto, a solução pública de Peskov é quase cómica na simplicidade: “muda para Android, muda para os nossos sistemas, para os nossos serviços equivalentes”. O recado é claro, se o iOS se torna imprevisível para o Estado russo, então a prioridade passa a ser o Android, onde há lojas alternativas como a RuStore e controlos mais flexíveis sobre o que se instala. É a mesma lógica que já vimos em episódios anteriores, como quando as autoridades recorreram a ferramentas como a Cellebrite para quebrar iPhones de activistas, contornada por fora quando o controlo por dentro falha, como contámos em um caso anterior ligado à Rússia.

Para quem está na Europa, este braço-de-ferro serve sobretudo de lembrete do custo de viver preso a plataformas proprietárias comandadas a partir de Califórnia e de regimes autoritários incapazes de viver com um mínimo de neutralidade tecnológica. A Apple não é súbita defensora da liberdade de expressão russa. Está a gerir risco regulatório e reputacional. Moscovo não defende “concorrência” quando pede aos cidadãos que abandonem o iPhone. Procura apenas um terreno onde a vigilância nacional seja mais fácil de impor. Entre o jardim murado da Apple e a selva regulada à medida de um governo, o utilizador russo continua a ser a peça sacrificável no tabuleiro.

Fonte: Ars Technica

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