CIêNCIA

SpaceX prepara Starlink móvel e mira diretamente o bolso dos americanos

A constelação de satélites quer descer ao rés-do-chão e vender serviço móvel direto. Se correr bem nos EUA, o modelo mais cedo ou mais tarde chega à Europa.

SpaceX prepara Starlink móvel e mira diretamente o bolso dos americanos

A Starlink já cobre meio mundo a partir da órbita baixa, mas a SpaceX está a olhar para o negócio que sempre esteve debaixo dos seus satélites: o telemóvel clássico. Segundo o Financial Times, a empresa andou a dizer a investidores que quer lançar um serviço móvel Starlink de retalho nos EUA, em seu nome, e não escondido atrás de operadoras parceiras.

A revelação terá sido feita por Gwynne Shotwell, presidente da SpaceX, durante a digressão de apresentação do IPO da Starlink. A mensagem, segundo fontes citadas pelo FT, é clara: a empresa estuda um produto móvel próprio e até a hipótese de construir uma rede terrestre nos EUA para o suportar. Isto é mais do que aperfeiçoar o que já existe, é mudar de liga e entrar diretamente em choque com gigantes como a Verizon, AT&T e T-Mobile.

Neste momento a SpaceX já oferece ligação direta ao telemóvel nos EUA através de uma parceria com a T-Mobile, usando os satélites para tapar buracos de cobertura em zonas remotas. A promessa do novo plano é outra: um produto Starlink de balcão, vendido diretamente ao consumidor, sem operadora a fazer de intermediário entre a constelação em órbita e o cartão SIM. É aqui que a ambição tecnológica encontra a ambição financeira: a Starlink é a máquina de dinheiro da SpaceX, mas o crescimento do negócio de satélite residencial está a ficar mais difícil, por isso faz sentido ir à maior piscina de receitas que existe nas telecomunicações.

As peças de hardware e regulação também já se mexeram. No ano passado, a SpaceX comprou licenças de espetro da EchoStar por 17 mil milhões de dólares, um negócio que o regulador norte-americano FCC (Federal Communications Commission) aprovou e que lhe dá espetro terrestre suficiente para operar como rede móvel autónoma. Não se gasta esse tipo de dinheiro para ficar eternamente como fornecedor grossista para outras operadoras. É a mesma lógica que está por trás de outros projetos a tentar contornar satélites tradicionais, como os dirigíveis solares de alta altitude: controlar mais da cadeia, capturar mais da margem.

Do lado económico, o cálculo também não é complexo. O mercado móvel norte-americano conta centenas de milhões de cartões ativos e dezenas de milhares de milhões de dólares de receita por ano. Vender capacidade por grosso a uma T-Mobile é uma coisa, vender pacotes diretamente ao consumidor é outra: a margem por utilizador dispara, se a SpaceX conseguir convencer pessoas a trocar uma rede em que confiam por algo novo, parcialmente dependente de satélites e ainda sem histórico urbano sólido.

É aqui que aparecem os obstáculos. As grandes operadoras gastaram décadas e fortunas a encher cidades de antenas, a montar lojas e a fidelizar clientes. A ligação por satélite ainda não substitui uma rede densa num centro urbano com milhões de telemóveis a pingar dados em permanência. A própria SpaceX, por enquanto, posiciona o seu serviço direto ao telemóvel como cobertura adicional para “zonas mortas”, não como alternativa ao tarifário principal. E por agora é só isto: um plano repetido em reuniões de investidores, sem preços, datas ou qualquer calendário europeu. Mas se Elon Musk conseguir transformar a Starlink num operador móvel de retalho nos EUA, a pressão para replicar o modelo noutros mercados, incluindo a UE, não vai demorar. As operadoras portuguesas talvez ainda não tenham notado, mas a concorrência já está literalmente a passar por cima das suas antenas.

Fonte: The Next Web

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