Os EUA decidiram pôr a genética a trabalhar a sério para a conservação: todas as mais de 2.300 populações de plantas e animais listadas na lei de Espécies Ameaçadas vão ter o genoma sequenciado e tecidos guardados em “biobanco”. Isto inclui desde aves emblemáticas como a águia-real americana até plantas obscuras que quase ninguém viu fora de relatórios técnicos. A escala é inédita, mesmo para um país com o orçamento científico dos EUA.
O plano junta dois actores improváveis. De um lado, o governo federal, que nos últimos anos tem sido acusado de tentar esvaziar a própria lei que protege estas espécies. Do outro, a Colossal Biosciences, a tal empresa que gosta de anunciar o regresso de lobos-das-trevas e mamutes de laboratório. A mesma Colossal que chamou “dire wolf” a um lobo-cinzento com meia dúzia de edições genéticas e abriu uma boa discussão sobre o que é, afinal, uma espécie.
Agora a conversa é outra. A Colossal criou um projeto chamado BioVault, um repositório físico que vai armazenar tecidos e células reprodutivas de espécies em risco, mantidos a frio com um fluxo constante de azoto líquido e muita energia eléctrica. O novo acordo prevê que esse cofre receba amostras de todas as espécies listadas, e que essas amostras sirvam para gerar sequências de genoma completas. Nas palavras da própria empresa, são “materiais biológicos que permitem reprodução assistida, gestão genética de populações e, quando espécies se perdem, a possibilidade de futura restauração”. Tradução: desde reforçar populações atuais até abrir a porta a tentativas de “desextinção”.
O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA vai tratar da parte dura, a recolha em campo e a amostragem com protocolos que evitem stress adicional para populações já frágeis. Quem recolhe mantém poder de decidir como é que o material é usado, o que é relevante quando entram em cena comunidades indígenas e territórios tribais, onde o património biológico não é apenas “recurso” mas parte da identidade. A Colossal promete que todos os dados genómicos gerados vão para repositórios de acesso aberto, sem custo, para que qualquer equipa de conservação ou laboratório no mundo possa usar aquelas referências e ferramentas bioinformáticas.
Há excepções previstas. Dados demasiado detalhados sobre localização de populações podem ser ocultados para evitar que o mapa genético se transforme em mapa de caça furtiva. E há ainda a questão da soberania sobre recursos genéticos de povos nativos, uma ferida antiga que a biotecnologia insiste em reabrir. Não é irrelevante perguntar quem lucra se, daqui a dez anos, a Colossal estiver a licenciar tecnologia de reprodução assistida baseada em linhas celulares recolhidas com dinheiro público e trabalho de biólogos de conservação.
Para quem está em Portugal, pode parecer uma história distante, mas a tendência é clara: a conservação do século XXI vai ser tão genómica como ecológica. Quando a base de dados de referência está em Washington e Dallas, qualquer país que queira ter voz precisa de investir nos seus próprios biobancos e sequenciação. Os EUA estão a construir o cofre e a chave ao mesmo tempo. Resta aos outros decidir se ficam à porta ou se tratam de montar os seus próprios frigoríficos cheios de azoto líquido.
Fonte: Ars Technica
Comentários · 0