CIêNCIA

xLight quer furar o domínio da ASML com laser de 350 milhões

A startup de Pat Gelsinger está a angariar 350 milhões de dólares para um novo tipo de fonte EUV que promete chips mais densos e menos dependência da ASML.

xLight quer furar o domínio da ASML com laser de 350 milhões

Enquanto toda a gente olha para a Nvidia, a batalha mais estrutural dos chips passa por uma empresa que quase ninguém conhece. A xLight, uma startup californiana presidida por Pat Gelsinger, ex-CEO da Intel, está a negociar uma ronda de 350 milhões de dólares, cerca de 320 milhões de euros, para construir uma nova fonte de luz EUV que mexe diretamente no pedestal onde a holandesa ASML está sentada.

Convém lembrar o contexto. Hoje, só a ASML consegue vender máquinas de litografia EUV, o coração das fábricas que imprimem os chips mais avançados. Cada sistema topo de gama passa facilmente os 350 a 380 milhões de dólares, e são tão grandes que viajam em dezenas de contentores. Sem ASML não há 3 nm, nem 2 nm, nem a próxima geração de AI chips. O monopólio não é formal, mas é real. E isso preocupa quem fabrica chips, como se viu na forma como a Intel tenta recuperar terreno nos nós avançados, um tema que já esmiuçámos quando analisámos a sua aposta 18A-P e os primeiros AI PC feitos nos EUA.

O plano da xLight não é construir uma máquina concorrente completa. É atacar a peça mais crítica: a fonte de luz. Em vez de disparar lasers contra gotículas de estanho para gerar luz a 13,5 nm, como faz a ASML, a xLight está a desenvolver um laser de electrões livres alimentado por um acelerador de partículas compacto. A empresa diz que consegue chegar a comprimentos de onda na ordem dos 2 nm. Traduzindo, luz mais curta permite desenhar estruturas ainda mais finas, meter mais transístores na mesma área e potencialmente reduzir o número de passos de litografia por chip.

Se isto funcionar, não é apenas uma curiosidade académica. A fonte xLight teria de encaixar dentro das máquinas da ASML, não de as substituir, o que mostra bem quem continua a mandar. Mas abre a porta a duas coisas que contam: chips ainda mais densos para treinar modelos de IA vorazes e, em teoria, alguma pressão sobre os custos por wafer. Hoje só um punhado de fábricas no planeta, como TSMC e Samsung, consegue operar estes monstros mecânicos. Qualquer melhoria que lhes permita amortizar melhor o investimento ou escalar produção tem impacto global, da cloud nos EUA ao centro de dados que a MEO ou a NOS alugam em Portugal.

O empurrão político é tão importante como o tecnológico. O Departamento do Comércio dos EUA acabou de fechar um apoio de 150 milhões de dólares à xLight ao abrigo da CHIPS and Science Act, a lei com que Washington tenta reconstruir produção avançada em solo americano. Até agora, a maior fatia desse dinheiro foi para fábricas clássicas. Pôr fundos federais numa tecnologia de fonte EUV que ainda não existe é um tipo de risco que, ironicamente, a Europa raramente assume, apesar de ter em Eindhoven a própria ASML. Enquanto por cá se discute onde encaixar mais uma fábrica de montagem, nos EUA o Estado aceita entrar como investidor de facto num ponto ultra-especializado da cadeia.

Com este novo cheque, a xLight deverá passar dos cerca de 200 milhões de dólares já levantados para um total bem acima dos 500 milhões, contando ainda com vários milhares de milhões em financiamento de projeto não vinculativo para futuras instalações. O primeiro protótipo funcional está prometido para 2028, no complexo Albany NanoTech, em Nova Iorque. Até lá, a ASML continua dona e senhora da litografia extrema. Mas o simples facto de investidores como a Bain Capital alinharem centenas de milhões numa alternativa mostra que o monopólio tem prazo mental de validade. A dúvida não é se o mundo quer menos dependência de uma única empresa de Veldhoven, é se consegue pagar o preço físico, financeiro e político de lá chegar.

Fonte: The Next Web

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