Stripe, Anthropic e OpenAI juntam 500 milhões para travar gripes
Chama-se Intercept, quer atacar vírus respiratórios com vacinas e limpeza de ar em grande escala. É filantropia high-tech a entrar num problema que Big Pharma nunca achou sexy.
Chama-se Intercept, quer atacar vírus respiratórios com vacinas e limpeza de ar em grande escala. É filantropia high-tech a entrar num problema que Big Pharma nunca achou sexy.
Metade do inverno em Portugal é passado a fungar no autocarro, no escritório ou na escola. Constipações e gripes são tratadas como maçada inevitável, não como problema técnico a resolver. A Stripe discorda. A empresa de pagamentos dos irmãos Collison está a financiar com 500 milhões de dólares, cerca de 460 milhões de euros, uma nova organização sem fins lucrativos chamada Intercept, focada em prevenir constipações, gripe e, no limite, reduzir drasticamente os vírus respiratórios.
O dinheiro vem de um conjunto curioso de benfeitores: Stripe, Anthropic, Flu Lab, a OpenAI Foundation, Bill Gates e traders do fundo quantitativo Jane Street Capital. A ideia é usar bolsas e investimentos em duas frentes: novas abordagens biomédicas, como vacinas e fármacos de largo espectro, e sistemas de limpeza de ar em grande escala para escolas, escritórios e outros espaços públicos. Ou seja, tornar o ar que respiramos tão filtrado quanto a água canalizada.
Nan Ransohoff, executiva da Stripe que lidera o projeto com o investidor Charlie Petty, resume o diagnóstico: subestimamos o peso destas infeções. Em média, cada pessoa passa cerca de 5% da vida às voltas com constipações ou gripe. Mesmo assim, as farmacêuticas quase não investem em prevenção. Não é só desinteresse. O problema é estrutural. Existem mais de 200 vírus diferentes associados à constipação, muitos deles rinovírus. Desenvolver uma vacina para cada um não compensa quando, em paralelo, há cancro, doenças raras e outros alvos muito mais lucrativos.
Ransohoff compara o Intercept a um esforço anterior da Stripe, o programa Frontier, que juntou 1,8 mil milhões de dólares para acelerar tecnologias de remoção de carbono da atmosfera. Em ambos os casos, a tese é semelhante: é tecnicamente possível actuar, mas o incentivo de mercado é fraco. Falta alguém com cheques grandes e paciência longa a puxar pela ciência. Aqui entra também David Veesler, biólogo estrutural e designer de vacinas na Universidade de Washington, que defende que já há ferramentas para atacar famílias inteiras de vírus: fármacos de RNA, anticorpos desenhados por computador, proteínas artificiais que “agarram” vírus no nariz antes de estes infetarem alguém.
Há um certo otimismo de laboratório neste discurso, alimentado pelo sucesso da resposta rápida à covid-19, onde equipas como a de Veesler ajudaram a criar vacinas e anticorpos em tempo recorde. O Intercept quer replicar esse espírito, com conselheiros como Peter Marks, ex-responsável de topo na FDA, e Moncef Slaoui, que liderou o programa norte-americano Operation Warp Speed. A ambição não é ter “a vacina da constipação”, é encontrar contra-medidas amplas e complementar isso com tecnologia física, como luz ultravioleta potente em sistemas de ventilação, para desativar vírus em circulação.
Politicamente, a jogada expõe outro dado: os EUA gastam cerca de 6,5 mil milhões de dólares por ano em investigação de vírus através do NIAID, mas o orçamento está estagnado. A filantropia privada entra onde o Estado abranda. É uma boa notícia para quem respira o mesmo ar nos escritórios de Lisboa ou nas escolas do Porto, porque se isto resultar não fica confinado à Califórnia. Mas também é mais um sinal de que problemas de saúde pública gigantes acabam nas mãos de milionários da tecnologia e de fundações alinhadas com empresas de IA como a Anthropic e a OpenAI. Resolver constipações com cheques de Silicon Valley pode ser ótimo para o nosso nariz, mas também concentra mais uma fatia de poder sobre a ciência em meia dúzia de players privados.
Fonte: MIT Technology Review
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