CIêNCIA

Falha na rede sem fios pára comboios em toda a Alemanha durante a noite

Queda nacional do GSM-R da Deutsche Bahn travou comboios em estações e expôs o risco de depender de 2G para infraestrutura crítica em plena transição para 5G.

Falha na rede sem fios pára comboios em toda a Alemanha durante a noite

Uma avaria na rede sem fios da Deutsche Bahn (DB) chegou para encostar ao cais praticamente todos os comboios na Alemanha na noite de terça para quarta. O operador ferroviário teve de mandar parar serviços de longo curso e suburbanos depois de o seu sistema de comunicações ferroviárias ter ido abaixo.

Às 22h30, hora local, a DB avisou que a sua rede GSM-R tinha caído. Resultado: comboios retidos em estações, ligações interrompidas e milhares de passageiros encalhados a meio da semana. GSM-R é uma versão do padrão 2G GSM adaptada às necessidades das operadoras ferroviárias, usada para redes privadas que ligam maquinistas, sinalização e sistemas de controlo. Em 2026, confiar uma ferrovia nacional a tecnologia 2G já é discutível. Quando a rede falha a nível nacional, deixa de ser só discutível e passa a ser embaraçoso.

A própria DB sabe que o tempo do GSM-R acabou. Já assinou com a Nokia a migração para um sistema baseado em 5G usando FRMCS, Future Railway Mobile Communication System. É o novo padrão europeu para comunicações ferroviárias móveis, também em análise no Reino Unido, que deve substituir gradualmente o 2G dedicado. Só que a transição não acontece de um dia para o outro. E enquanto não acontece, o velho 2G continua a ser o fio invisível que segura a operação inteira.

Perante o apagão, a DB teve de entrar em modo contenção de danos. Três minutos depois da meia-noite, começou a prometer vouchers de táxi e hotel aos passageiros afetados. Ao mesmo tempo, comunicou que já tinha identificado a causa da falha e que as equipas técnicas estavam a trabalhar na recuperação. O comunicado seguinte mostra que os engenheiros conseguiram agir rápido: por volta das 00h50 a rede começou a voltar a funcionar e, na manhã de quarta, os serviços iam sendo retomados, embora com perturbações pontuais e necessidade de confirmar ligações caso a caso.

Até agora não há qualquer indicação de ciberataque, cabos cortados ou outro incidente físico que justifique uma falha desta escala. Para já, é uma “simples” avaria num sistema que, em teoria, deveria ter camadas de redundância suficientes para evitar que uma falha lógica ou técnica derrubasse o país inteiro. É aqui que o episódio é mais desconfortável: não tanto pela hora a que aconteceu, mas pelo que sugere sobre a resiliência real das redes que seguram infraestrutura crítica.

No comunicado, a DB sublinha que os seus “peritos de TI trabalharam incansavelmente para resolver o problema, com sucesso”. É o clássico enredo corporativo: heróis de TI a apagar o fogo, em vez de uma discussão séria sobre porque é que o edifício era tão inflamável. Para quem olha da periferia da UE, incluindo em Portugal onde CP e Infraestruturas de Portugal também vivem de sistemas antigos e projetos de modernização lentos, o episódio alemão é um aviso claro. Digitalizar a ferrovia com 5G e FRMCS não é um luxo tecnológico. É a diferença entre um problema localizado e um apagão nacional.

Fonte: The Register

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