Dirigíveis solares querem roubar trabalho aos satélites de internet
A Sceye prepara um dirigível estratosférico a energia solar para apoiar 5G no Japão. Menos órbita, mais altitude, numa corrida onde a Europa arrisca ficar a ver.
A Sceye prepara um dirigível estratosférico a energia solar para apoiar 5G no Japão. Menos órbita, mais altitude, numa corrida onde a Europa arrisca ficar a ver.
Enquanto discutimos buracos de cobertura e antenas 5G em telhados, há quem esteja a pôr a infraestrutura de rede a flutuar a 18 km de altura. A Sceye, uma empresa do Novo México, vai testar já em agosto um dirigível prateado alimentado a energia solar, estacionado na estratosfera ao largo do Japão, a reforçar a rede 5G da SoftBank.
O conceito tem sigla própria: HAPS, de high-altitude platform station. Na prática, é um híbrido entre satélite e torre de telecomunicações. O dirigível da Sceye, com cerca de 60 metros de comprimento, sobe com hélio, leva painéis solares no “tejadilho” e um conjunto de antenas que prometem enviar dados diretamente para smartphones no solo. Fica a meio caminho entre uma antena terrestre e um satélite em órbita baixa, o que reduz brutalmente a energia necessária por bit enviado.
A vantagem técnica é clara: da estratosfera vê-se uma área enorme, mas continua-se suficientemente perto do chão para garantir latência baixa e ligações diretas a terminais móveis comuns. Em teoria, isto ataca dois problemas ao mesmo tempo, cobertura rural e resiliência em catástrofes, onde os HAPS podem ser deslocados para cima de zonas afetadas. Para operadores, é uma forma tentadora de aumentar capacidade sobre cidades sem entrar logo no campeonato de lançar constelações inteiras de satélites, como fazem a Starlink ou os projetos que descrevemos quando falámos do satélite que já aceita pedidos em linguagem natural.
O lado menos glamoroso é o de engenharia. Ficar parado na estratosfera não é exatamente um passeio de balão. O dirigível tem de ser leve o suficiente para se manter no ar, mas robusto para aguentar ventos e transportar baterias, antenas, sistemas de navegação e um ventilador elétrico que o reposiciona quando o vento o empurra. Tudo isto com energia exclusivamente solar, acumulada durante o dia para funcionar 24/7. Em 2024, a Sceye já tinha feito um voo de 12 dias até à costa do Brasil, com mais de 88 horas “estacionado” em diferentes pontos, o que prova alguma maturidade, mas está longe de uma operação comercial contínua.
Há concorrência séria. A Airbus, com a subsidiária Aalto e o seu Zephyr, também aposta em HAPS, tal como vários projetos inspirados pelo falhado Loon da Google. A diferença é que a Sceye quer ir diretamente ao bolso dos operadores móveis, integrando-se em redes 5G existentes. Para quem olha a partir da Europa, onde se investe pesado em fibra e se discute já 6G com trabalhos como a plataforma RF até 325 GHz do IMEC, estes dirigíveis são menos concorrência e mais complemento. Podiam cobrir zonas remotas de Portugal ou arquipélagos, sem passar por novas torres e licenças de obra intermináveis.
O que falta não é imaginação, é modelo de negócio e regulação. Licenças de espectro, responsabilidade em caso de queda, integração com regras de aviação e ambientais, tudo isto vai pesar tanto como os painéis solares no dorso do dirigível. O CEO da Sceye diz que ver HAPS será tão banal como ver comboios ou navios. Convém lembrar que os céus já estão a ficar cheios de satélites e a burocracia não voa à mesma velocidade. Entre o entusiasmo pelo brilho metálico a pairar sobre o Pacífico e a realidade de contratos, seguros e autoridades aeronáuticas europeias, há um fosso que nenhum balão preenche sozinho.
Fonte: MIT Technology Review
Comentários · 0