CIêNCIA

Trump quer computador quântico de referência construído até 2028

A Casa Branca mete datas e dinheiro em cima da mesa para o quântico e aperta o calendário da criptografia pós-quântica. O alvo técnico continua convenientemente vago.

Trump quer computador quântico de referência construído até 2028

Donald Trump assinou a 22 de junho duas ordens executivas sobre computação quântica. Uma exige um computador quântico “poderoso o suficiente para investigação científica” até 2028. A outra encurta o prazo para a migração da administração norte-americana para criptografia pós-quântica para 2031. Data há, definição do que conta como “poderoso” é que ainda não.

O primeiro texto, revelado pela NBC News, pede uma máquina de “grau de investigação” em dois anos e computadores quânticos “com relevância comercial” até ao fim do atual mandato. A fasquia técnica não vem no decreto. Fica nas mãos do Departamento de Energia, que mais tarde há de fixar métricas de escala. Até lá, o objetivo cabe em qualquer conferência de imprensa: parece ambicioso, não obriga a números concretos.

Onde há números é no cheque. A administração fala em 2 mil milhões de dólares, cerca de 1.850 milhões de euros, em subvenções para nove empresas de computação quântica, com uma particularidade pouco habitual na ciência pública dos EUA: em troca, o Estado passa a acionista. Segundo a imprensa norte-americana, cerca de 1.000 milhões de dólares iriam para a IBM, 375 milhões para a GlobalFoundries e 100 milhões para cada uma de várias empresas mais pequenas, como D-Wave Quantum, Rigetti Computing e Infleqtion. São valores reportados, não estão escritos na ordem, mas dão a escala do movimento.

Este modelo equity-por-subsídio aproxima a Casa Branca da lógica de fundos de capital de risco. O governo não só financia como aposta que estas empresas terão lucro, e quer lugar na mesa quando isso acontecer. É uma ruptura em relação ao financiamento clássico de investigação, mais próximo de “toma lá o dinheiro, traz resultados e boa sorte na bolsa”. E alinha com a vaga de grandes apostas de capital que anda a redesenhar quem manda na cadeia de fornecimento de chips e IA, de que já falámos quando a Nvidia começou a espalhar milhares de milhões de dólares em participações minoritárias pela indústria.

A segunda ordem é menos vistosa, mas provavelmente mais relevante para o resto do planeta. Obriga a máquina federal a acelerar a adoção de criptografia pós-quântica, com prazo final em 2031, encurtando o calendário que muitos serviços públicos tratavam como coisa distante. Traduzido: é para começar agora a trocar algoritmos de encriptação em comunicações classificadas, sistemas financeiros e infraestruturas críticas, antes que alguém construa um computador quântico capaz de partir as chaves que hoje consideramos seguras. Não é um upgrade de software qualquer, é cirurgia de fundo a redes gigantescas.

O pacote deverá ainda mandar as agências de informação proteger melhor a investigação quântica doméstica de ameaças estrangeiras. Não por patriotismo abstracto, mas por um motivo bem concreto: quem chegar primeiro a um computador quântico realmente útil ganha vantagem brutal na capacidade de desencriptar comunicações ainda cifradas com normas clássicas. Para a Europa e para Portugal, este sprint norte-americano é um aviso claro. Se Bruxelas continuar a tratar quântica e pós-quântica como ficheiros de trabalho eternamente em consulta pública, vamos ficar a consumir tecnologia de quem já leva anos de avanço e ainda por cima escreveu as regras do jogo.

Fonte: The Next Web

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