CIêNCIA

Rogfast: como a Noruega abriu uma autoestrada sob o Mar do Norte

O Rogfast vai ser o túnel rodoviário subaquático mais profundo e longo do mundo. É engenharia pesada, toneladas de explosivos e um lembrete de que obras ambiciosas ainda se fazem.

Rogfast: como a Noruega abriu uma autoestrada sob o Mar do Norte

Trinta andares abaixo da superfície do Mar do Norte, a sensação não é de futurismo nórdico, é de gruta húmida. Cheiro estranho, ruído constante de máquinas, capacete na cabeça e a noção física de milhões de toneladas de água ali em cima. É aqui que a Noruega está a abrir o Rogfast, um túnel rodoviário submerso com 26,7 km que vai bater dois recordes de uma vez: o mais longo e o mais profundo, a descer até cerca de 390 metros sob o nível do mar.

Para um país que já tem o Ryfylke, com 14,4 km, isto não é um capricho, é continuidade. A costa recortada obriga a escolher entre ferries constantes ou túneis e pontes agressivas para o orçamento. O Rogfast é a Noruega a dobrar a aposta na segunda via. E está a atrair curiosos de todo o lado: Japão, Espanha, Marrocos, vários estados americanos. Toda a gente quer perceber como se constrói uma autoestrada contínua debaixo do mar, onde a física e a geologia passam o tempo todo a tentar sabotar o projecto.

A resposta norueguesa é pouco romântica: explosivos, muitos. Em vez de depender sobretudo de tuneladoras gigantes, estas equipas usam o método de perfuração e detonação, o chamado drill-and-blast, que lhes dá mais margem para lidar com rocha irregular e percursos longos e complexos. Cada explosão come mais cinco a seis metros de rocha. O túnel avança em duas frentes, uma a partir do norte, outra a partir do sul, com equipas que passam 12 horas por dia sem ver luz natural. Turnos de 12 dias seguidos, 16 de descanso. Não é um trabalho que se aguente sem um certo prazer por estar debaixo de terra.

O lado fascinante aqui não é só o comprimento do buraco. É a logística que o torna utilizável para condutores comuns que só querem ir de A a B sem pensar em pressão hidrostática. Ventilação massiva para lidar com fumos, água a ser gerida constantemente, geologia que muda de dezenas em dezenas de metros, rotundas subterrâneas, câmaras de resgate distribuídas ao longo da rede. Tudo isto enquanto se garante que, no dia em que abrir, o Rogfast vai parecer “só mais um túnel” a quem o atravessa. A boa engenharia é muitas vezes isso, esconder o drama.

Visto de Portugal, onde obras públicas deste calibre se transformam facilmente em novela de anos, o Rogfast é um contraste desconfortável. Não porque devamos copiar cegamente a obsessão norueguesa por túneis, mas porque mostra o que implica levar a sério uma decisão política de ligar regiões por via rodoviária: décadas de planeamento, riscos assumidos, equipas que aceitam trabalhar num ambiente que um engenheiro descreve quase como um estilo de vida. Quando delegações estrangeiras admitam que “não há livro que explique como se faz isto”, o subtexto é simples: há países que ainda estão a escrever capítulos novos de engenharia pesada.

Numa Europa que fala cada vez mais de descarbonização e de menos carros, um mega-túnel rodoviário pode soar fora de tempo. Mas também aqui a Noruega joga noutro campeonato, com produção eléctrica quase toda renovável e um parque automóvel cada vez mais eléctrico. O Rogfast não é um atalho para SUV a gasóleo, é uma peça num puzzle de mobilidade que o país decidiu montar há décadas. Quem passar por lá quando abrir vai ver paredes de betão e iluminação LED. O que não vai ver são os anos de explosões metódicas e o frio colado à rocha que o tornaram possível.

Fonte: MIT Technology Review

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