Morreu Bobby Prince, o compositor da banda sonora de Doom
Aos 81 anos, desaparece o músico que pôs heavy metal em placas AdLib e definiu o som dos FPS dos anos 90. A Library of Congress só chegou a tempo de o consagrar.
Aos 81 anos, desaparece o músico que pôs heavy metal em placas AdLib e definiu o som dos FPS dos anos 90. A Library of Congress só chegou a tempo de o consagrar.
Bobby Prince morreu aos 81 anos. Se cresceste a jogar em MS-DOS, é quase certo que lhe deves algumas das melodias mais coladas à tua cabeça, mesmo que nunca tenhas visto a cara dele. Foi o homem que transformou Doom, Wolfenstein 3D e Duke Nukem 3D em jogos que também se ouviam, não só se jogavam.
Robert Caskin “Bobby” Prince III não começou na música de jogos. Foi comandante de pelotão na guerra do Vietname, passou pela psicologia e pelo Direito, e só depois se atirou a sério às bandas sonoras digitais, no início dos anos 90. Quando chegou aos PCs, o áudio ainda cheirava a bips de PC Speaker. Ele pegou numa placa AdLib e decidiu que aquilo ia soar a heavy metal, quer o hardware quisesse ou não.
A colaboração com a id Software e a Apogee deu-lhe terreno para isso. Em Wolfenstein 3D experimentou um tom de filme de guerra da Segunda Guerra Mundial em formato MIDI. Em Commander Keen e Cosmo’s Cosmic Adventure mostrou que também sabia ser leve e quase infantil. Mas foi com Doom e Doom II que entrou para a história. Riffs inspirados em metal dos 80s e 90s, andamento frenético, linhas de baixo que empurravam o jogador para a frente. A estética sonora dos FPS modernos começa ali, num ficheiro .WAD com guitarras virtuais.
Curiosamente, Prince não compôs enfiado no escritório da id em Dallas. Baseou-se no chamado “Doom Bible”, o documento de design compilado por Tom Hall. Muito do que estava nesse texto nunca chegou ao jogo final, mas serviu-lhe como guião emocional. Em poucos meses tinha rascunhado grande parte da música e dos efeitos sonoros que ainda hoje soam familiares. À distância, percebe-se que ajudou a definir algo mais do que um jogo: definiu um clima, aquele misto de horror e energia adolescente que continua a ser reciclado em remakes, reboots e DLCs.
Nas redes, as homenagens vieram de quem o conheceu de perto. John Romero escreveu que Bobby deixou uma marca enorme nos jogos e na sua vida. George Broussard, cofundador da Apogee e 3D Realms, descreveu-o como o “Hans Zimmer dos shareware” e recordou-o a passear pelo estúdio com um gravador, a capturar ruídos de teclados, portas e passos para transformar em efeitos. Não é só romantismo retro, é o retrato de uma fase da indústria em que meia dúzia de pessoas assinavam tudo, som incluído.
Em maio, a Library of Congress tinha anunciado a inclusão da banda sonora de Doom no National Recording Registry, lado a lado com temas como “Turn! Turn! Turn!” dos The Byrds ou “Fly Me to the Moon”. Chamaram-lhe um “tesouro áudio” com valor cultural, histórico e estético. Tardio, mas justo. A cultura de videojogos continua a lutar por sair da caixa do entretenimento descartável. A consagração de um álbum de MIDI agressivo ao lado de standards de jazz e rock mostra que essa luta não é delírio de fã, é reconhecimento institucional.
Para quem hoje joga num portátil silencioso, com Spotify aberto em fundo, o impacto disto pode parecer distante. Mas houve uma geração que aprendeu o que era metal, tensão e atmosfera através de colunas de plástico baratas, com a música de Bobby Prince a servir de porta de entrada. A indústria move-se agora para serviços, IA generativa e remixes infinitos, mas aquela colecção de faixas comprimidas continua ali, a tocar em máquinas virtuais e ports modernos, como lembrete de que às vezes basta um compositor obcecado e um hardware miserável para marcar uma era.
Fonte: Video Games Chronicle
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