Anthropic fecha modelos e acende guerra europeia pela soberania da IA
Bloqueio dos modelos Fable 5 e Mythos 5 por ordem de Washington expõe a fragilidade europeia. Bruxelas fala em soberania tecnológica, investigadores discordam sobre o caminho.
Bloqueio dos modelos Fable 5 e Mythos 5 por ordem de Washington expõe a fragilidade europeia. Bruxelas fala em soberania tecnológica, investigadores discordam sobre o caminho.
A Anthropic desligou os seus modelos mais avançados, Fable 5 e Mythos 5, para não cidadãos dos EUA depois de uma ordem de controlo de exportações ligada à segurança nacional. A decisão foi mundial, apanhou empresas europeias pelo caminho e deixou claro quem controla o interruptor da IA de topo. Não é a Europa.
A Comissão Europeia diz estar a avaliar as consequências práticas da decisão americana. O porta-voz para a soberania tecnológica, Thomas Regnier, avisou à Euronews que medidas de emergência não podem ser “discriminatórias contra parceiros” e usou o episódio como prova de que a União precisa de reforçar a sua soberania tecnológica. Traduzido: Bruxelas percebeu que depender de modelos fundacionais sob jurisdição dos EUA é bonito enquanto Washington está bem-disposto.
Vários investigadores europeus, citados pelo Science Media Center, descrevem o caso como um sinal de alarme, mas concordância fica por aí. Thorsten Holz, do Instituto Max Planck, sublinha o óbvio que a política fingiu ignorar: um único governo estrangeiro pode desligar um modelo “de um dia para o outro” para todos os não-americanos, empresas europeias incluídas. Para ele, soberania digital não é autarcia, é garantir que tecnologias críticas continuam acessíveis mesmo em conflito geopolítico.
Konrad Rieck, da TU Berlim, leva o argumento mais longe. Lembra que modelos dos EUA podem ser “desligados a qualquer momento, por razões opacas” e defende que a Europa precisa de desenvolver e operar modelos próprios capazes. No mesmo registo, Gitta Kutyniok, da LMU Munique, pede um “momento Airbus” para a IA: investimento conjunto, massivo, em modelos fundacionais, desenho de chips e computação energeticamente eficiente. A mensagem é clara, quem só acordar quando as infraestruturas estiverem montadas acaba relegado a cliente cativo.
No lado oposto, Paul Röttger, do Oxford Internet Institute, é brutalmente pragmático. Não acredita que a Europa consiga competir com Mythos ou Fable 5. Em vez de despejar dezenas de milhar de milhões em IA doméstica, defende que a UE use o que sabe fazer: contratos bem amarrados, exigência de centros de dados em solo europeu e política comercial com dentes. Em resumo, comprar acesso garantido em vez de tentar construir o equivalente europeu à força.
Outros dois investigadores lembram porque é que esta ambição soa, por agora, a conversa de comunicado. Matthias Hein, da Universidade de Tübingen, nota que não chega ter um “campeão europeu”. Seriam precisos vários, num contexto em que nem se pode assumir que empresas privadas continuem a publicar modelos com pesos abertos. E Jonas Geiping, do ELLIS Institute Tübingen, atira para o elefante na sala: Mistral “ficou muito para trás” em apenas dois anos, faltam centros de dados em escala e energia, e a produção eléctrica alemã recuou a níveis de 1985. Sem megawatt, não há IA de fronteira.
Geiping também desmonta a comparação favorita da Anthropic com armas nucleares. A IA não é uma tecnologia militar isolada, está entranhada na economia. Um corte por razões diplomáticas não atinge só defesa, atinge cadeias logísticas, indústria, serviços financeiros, tudo o que entretanto se automatizou com modelos que vivem em data centers sob lei americana. Para Portugal e para o resto da UE, o episódio Anthropic não é um caso exótico, é um ensaio geral do que acontece quando a “nuvem” afinal tem bandeira.
Fonte: The Decoder
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