Nebulosa “Bola de Cristal” mostra como morrem estrelas como o Sol
Novo retrato da NGC 1514 pelo telescópio Gemini North expõe em detalhe a morte lenta de uma estrela e o papel decisivo de um par binário no caos de gás em redor.
Novo retrato da NGC 1514 pelo telescópio Gemini North expõe em detalhe a morte lenta de uma estrela e o papel decisivo de um par binário no caos de gás em redor.
A Nebulosa Bola de Cristal (Crystal Ball Nebula) parece saída de um livro de fantasia, mas é apenas astrofísica no seu modo mais cru. O telescópio Gemini North, no Havai, captou uma nova imagem da NGC 1514, uma nuvem de gás a ser expelida por uma estrela em fim de vida, daquelas que um dia será parecida com o nosso Sol a entrar na reforma definitiva.
O objecto, descoberto por William Herschel em 1790, é o que os astrónomos chamam uma nebulosa planetária. O nome é enganador, não tem nada a ver com planetas. Fica das primeiras observações telescópicas, quando estas bolhas de gás pareciam discos arredondados e esbatidos, vagamente semelhantes a pequenos planetas. Aqui, o que estamos a ver é a camada externa da estrela a ser ejectada para o espaço, enquanto o núcleo quente e exposto fica a cozinhar o gás em redor.
A imagem agora divulgada foi obtida com o Gemini Multi-Object Spectrograph, no telescópio Gemini North em Maunakea. A cerca de 1.500 anos-luz da Terra, a luz da NGC 1514 demorou 1.500 anos a chegar até nós, por isso estamos a olhar para um retrato histórico. À escala humana é antigo, à escala cósmica é ontem. O gás que vemos chega a temperaturas na ordem dos 15.000 K, algo como 14.700 °C. Quase três vezes mais quente do que a superfície do Sol. É isto que faz a nebulosa brilhar, não há filtros Instagram, é pura radiação ultravioleta a excitar o gás.
O detalhe revelado por telescópios como o Gemini começa a tornar estas imagens científicas em radiografias temporais. A mesma nebulosa observada ao longo de décadas deixa ver pequenas mudanças, a expansão da concha de gás, a forma a deformar-se. Não é só “astrofotografia bonita”. É monitorização de um processo que, em princípio, espera o nosso próprio Sistema Solar daqui a uns milhares de milhões de anos. Ver isto em alta resolução é uma pré-visualização do destino do Sol, que interessa tanto à ciência como à cultura que construímos em torno da nossa estrela.
No caso da Bola de Cristal há um detalhe extra a baralhar a geometria. No centro não está uma estrela solitária, estão duas. Um sistema binário que completa uma órbita em cerca de nove anos, um período surpreendentemente longo para este tipo de nebulosas. Uma das estrelas terá sido, em tempos, várias vezes mais massiva do que o Sol e está agora a deitar fora as camadas externas. À medida que as duas orbitam uma à outra, vão esculpindo o gás, criando assimetrias e camadas irregulares que se sobrepõem, aquilo que vemos como uma espécie de cebola cósmica mal descascada.
A leitura mais interessante para quem olha destas latitudes é clara. Numa era em que telescópios espaciais como o Webb dominam as manchetes, a imagem da NGC 1514 lembra que os grandes telescópios em solo, como o Gemini, continuam a ser cruciais. Menos glamour mediático, mas uma capacidade impressionante para acompanhar a evolução destes objectos ao longo do tempo. Para a comunidade científica europeia, incluindo equipas em Portugal, estes dados são matéria-prima para perceber como é que estrelas comuns morrem de forma tão pouco simétrica. A morte das estrelas não é um apagar de luz, é trabalho de escultor em câmara lenta.
Fonte: BBC Sky at nigh tmagazine
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