O Windows 11 tem uma definição de privacidade que, por defeito, começa a registar parte do que escreves desde o primeiro arranque do computador. Não é um keylogger clássico, mas o resultado prático é um ficheiro de texto dentro do teu perfil com uma lista de palavras que o sistema não conhecia e foi aprendendo em silêncio.
Segundo o MakeUseOf, sempre que escreves uma palavra que não está no dicionário interno do Windows, essa palavra é guardada num ficheiro chamado default.dic dentro da tua pasta de utilizador. O rótulo da funcionalidade fala em “Iniciar sessão manuscrita e personalização de escrita” e sugere canetas e ecrãs táteis, mas o registo é feito a partir de qualquer teclado reconhecido pelo sistema.
Com o tempo, essa lista acumula nomes próprios, alcunhas, siglas internas da empresa, gíria de chats privados e até erros de escrita recorrentes. Tudo em texto simples. Qualquer pessoa que consiga iniciar sessão com a tua conta pode abrir o ficheiro no Bloco de Notas e percorrer o dicionário personalizado que o Windows foi construindo à socapa.
O mais problemático é que este comportamento não é explicado durante a configuração inicial do Windows. Mesmo que escolhas as opções de privacidade mais restritivas em todos os ecrãs, a personalização de escrita continua ativa no fim do processo. Quem se dá ao trabalho de limpar dados de diagnóstico e limitar a telemetria continua com um registo local de palavras a crescer no disco, sem aviso.
Pior, há uma segunda definição, noutro menu, que trata de algo diferente: enviar exemplos da tua escrita para a Microsoft. A opção de diagnóstico e feedback inclui um envio de dados de utilização que, de acordo com o artigo, pode incluir amostras de texto para melhorar os modelos de previsão e correção. Ou seja, um toggle gere o dicionário local e outro, mais fundo nas definições, afeta o que sai da máquina.
Isto encaixa numa tendência que já se tinha visto noutras áreas do sistema: o Windows 11 vem com comportamentos muito intrusivos como pré-definição e cabe ao utilizador descobrir onde os desligar. Já tínhamos visto o mesmo padrão nos serviços de telemetria permanentes e em tecnologias antigas de rede ainda ativas por omissão, temas que detalhámos quando explicámos como o teu PC com Windows fala sempre com a Microsoft e porque é que o Windows 11 ainda traz ligada uma tecnologia de rede dos anos 90.
Um ficheiro de dicionário personalizado até faz sentido para um corretor ortográfico decente. O problema é ser criado e mantido em silêncio, sem qualquer explicação clara nem atalho óbvio para o apagar ou desativar. A soma dos dois toggles, um para o registo local e outro para o envio de dados, mostra bem a filosofia da Microsoft: a escrita do utilizador é matéria-prima, e só quem for muito insistente nas definições consegue limitar o apetite do sistema.
Fonte: MakeUseOf
Comentários · 0