LINUX

NetBSD assume-se como o sistema open source sem IA

Enquanto Linux, Debian e Ubuntu abraçam ferramentas geradas por IA, o NetBSD capitaliza a fadiga e o receio em torno do tema. As doações bateram recordes e o projeto ganha um novo papel: refúgio para quem quer código escrito por humanos.

NetBSD assume-se como o sistema open source sem IA
Imagem ilustrativa | Pixel Magazine

Enquanto quase tudo à volta de Linux se pinta de IA, o NetBSD está a crescer precisamente por remar na direção oposta. Segundo o The Register, o projeto recebeu em setembro um recorde de 120 doações e juntou $120.282 em apoios, mais do dobro da meta de 50.000$. Para um sistema operativo livre de nicho, é muito dinheiro e um sinal claro: há público para software sem código gerado por modelos.

O contraste com o resto do mundo FOSS é forte. Debian decidiu permitir contribuições geradas por IA, Ubuntu encheu a última conferência de agentes e Red Hat fala num “ciclo de desenvolvimento agentic” como se fosse inevitável. Mesmo Linus Torvalds, guardião do kernel Linux, já avisou que Linux não é um projeto anti-IA. Quando a própria infraestrutura começa a aceitar código escrito por bots, quem prefere código artesanal começa a ficar sem chão.

É aqui que o NetBSD encontrou o seu ângulo. O projeto tomou posição cedo e proibiu código gerado por IA no repositório. Não é só ceticismo técnico, é um statement político dentro do software livre. Em vez de vender produtividade a qualquer custo, assume uma linha vermelha: quem contribui, programa. Ponto. Para quem vê a avalanche de ferramentas de autocompletar como dívida técnica embalada em marketing, esta clareza é rara.

No Open Source Summit Europe, em Praga, onde o jornalista do The Register andou na passada semana, o retrato foi outro. Linux dominava por completo, BSD nem se via, e a palavra do dia era sempre a mesma: IA. IA nos slides, IA nas t-shirts, IA nas demos. Quando pessoas ligadas ao Let’s Encrypt perguntam “o que é o net bee ess dee?”, não é só ignorância simpática, é sintoma da irrelevância em que o projeto caiu no mainstream. Justamente por isso, qualquer pequeno desvio de rumo na comunidade maior pode ter impacto desproporcionado num sistema alternativo que se posiciona de forma clara.

Para quem anda a testar distribuições Linux mais leves, como o Damn Small Linux para dar uma segunda vida a portáteis, ou alternativas que imitam o Windows como o Zorin e o Mint, a ideia de um sistema inteiro que promete ficar longe de código gerado por IA pode soar tentadora. Menos produtividade bruta, mais previsibilidade, mais rastreabilidade. Claro que há trade-offs: menos massa crítica, menos drivers recentes, menos conveniências modernas. Mas para universidades, equipas de segurança paranoicas, ou projetos onde a rastreabilidade do código é crítica, um NetBSD assumidamente “IA-free” pode ser mais interessante do que mais uma distro Linux com assistente em tudo.

NetBSD não vai subitamente destronar Linux em servidores ou no desktop. Mas a forma como se reposiciona mostra outra coisa: num mundo onde toda a gente corre atrás da mesma buzzword, dizer “não” passa a ser uma funcionalidade. E no software livre, onde a confiança conta tanto como a licença, essa pode ser a arma mais rara que um projeto ainda tem.

Fonte: The Register

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