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Apple prepara servidores com chips M8 para governos e IA em 2029

Fala-se em M8 Ultra ligados por NVLink Fusion e um regresso tímido da Apple ao hardware de datacenter. A jogada encaixa como luva no debate europeu sobre soberania digital.

Apple prepara servidores com chips M8 para governos e IA em 2029

A Apple pode voltar aos servidores quase vinte anos depois de matar o Xserve. Segundo o The Information, Cupertino está a desenvolver um servidor empresarial baseado em chips M8 Ultra, pensado para correr cargas de IA e atrair programadores, empresas e governos. O alvo temporal é 2029, que em tecnologia é quase outra era geológica.

Os protótipos descritos dividem-se em duas configurações: uma máquina com dois M8 Ultra e outra maior com quatro. Para ligar estes chips entre si, a Apple terá discutido o uso de NVLink Fusion, a tecnologia de interligação de alta velocidade da Nvidia que já é licenciada para Qualcomm, Arm, Fujitsu e Marvell. Nada disto é produto anunciado, é planeamento interno sujeito a mudanças e cancelamentos, mas mostra que a Apple olha para o datacenter com mais seriedade do que o marketing do iCloud deixa transparecer.

Convém lembrar que a Apple já constrói servidores, simplesmente não os vende. A infraestrutura de Private Cloud Compute que a empresa apresentou este ano corre inicialmente em hardware próprio com Apple Silicon. Só mais tarde abriu exceções com recurso a Google Cloud, em cima de GPUs Nvidia e CPUs Intel, para escalar alguns serviços. Em paralelo, toda a indústria está a pressionar a rede elétrica e as infraestruturas com a febre da IA, como se viu na expansão agressiva da Google na Finlândia e no facto de os EUA começarem a ficar à rasca de eletricidade para tantos datacenters, temas que já detalhámos quando olhámos para o investimento da Google no norte da Europa e para como os EUA estão a rebentar os limites da sua rede.

O ponto mais curioso aqui não é só técnico, é político. A Comissão Europeia apresentou em junho a proposta de Cloud and AI Development Act, que cria níveis de “garantia de soberania” para contratos públicos de cloud. O topo da pirâmide, pensado para defesa e segurança nacional, exige certificado europeu de cibersegurança e controlo efetivo sobre cada componente de software. Em teoria, nenhum país terceiro pode controlar o design, o desenvolvimento ou a manutenção do fornecedor.

Na prática, Bruxelas já mostrou que o dogma tem limites. Em abril, um quadro de 180 milhões de euros para “cloud soberana” acabou atribuído, em parte, a um consórcio liderado pela Proximus com uma parceria Thales-Google e a presença da Mistral AI. Resultado: infraestrutura americana a servir um projeto europeu, desde que operada sob um quadro jurídico e técnico estrito. A distinção está a deslocar-se para soberania de operação em vez de soberania de tecnologia.

É aqui que um servidor Apple vendido a um governo europeu encaixa como peça lateral. A proposta de lei foca-se em serviços de cloud, não em hardware, por isso a simples venda de máquinas fica fora do radar legislativo. Um Estado que compre racks de servidores com M8 Ultra, os instale num datacenter nacional e os opere com equipa própria pode argumentar que controla a operação, mesmo se o silício e parte do firmware forem desenhados em Cupertino. Para a Apple, entrar neste jogo significa aproximar-se dos contratos públicos mais sensíveis sem se meter diretamente na lama regulatória da cloud soberana. Para a Europa, é mais um lembrete de que querer independência tecnológica em IA, enquanto se continua a depender de chips e interconectores alheios, é um exercício permanente de malabarismo.

Fonte: The Next Web

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