O daraxonrasib acaba de transformar em tratamento uma das velhas obsessões da oncologia. A 26 de agosto, a FDA aprovou o medicamento para adultos com adenocarcinoma metastático do pâncreas que já tenham recebido pelo menos uma terapêutica sistémica, ou que não sejam candidatos a tratamentos sistémicos combinados. A decisão chegou apenas 135 dias depois de terem sido apresentados os primeiros dados de sobrevivência global do ensaio de fase 3 RASolute 302. O estudo mostrou praticamente o dobro da sobrevivência global face ao tratamento padrão.
O significado vai além de mais um medicamento para o cancro do pâncreas. Durante décadas, o RAS foi considerado um alvo particularmente difícil de atacar. O daraxonrasib, desenvolvido pela Revolution Medicines, tenta contornar uma limitação dos primeiros inibidores de KRAS, que eram desenhados para mutações específicas, como G12C. A estratégia é atingir a via RAS de forma mais abrangente. E há outro detalhe importante: é a primeira terapêutica sistémica não baseada em quimioterapia a demonstrar eficácia neste contexto do cancro pancreático. Segundo Nicholas Hornstein, oncologista gastrointestinal ouvido pela CancerNetwork, a aprovação altera imediatamente a forma como se olha para a segunda linha de tratamento. Ensaios clínicos que estavam a testar novas abordagens nesse momento podem ter de ser redesenhados, porque o padrão de tratamento mudou.
A indicação da FDA tem ainda uma particularidade relevante. O doente não precisa de ter uma mutação RAS identificada para receber o medicamento. Isto pode parecer estranho, mas pelo menos 90% dos cancros do pâncreas apresentam alterações na via RAS e existe a possibilidade de parte dos restantes simplesmente não ter uma alteração detectável com os métodos actuais. Na prática, a aprovação abrange todos os doentes elegíveis no contexto definido pela FDA. E abre uma porta adicional para pessoas demasiado debilitadas para suportar quimioterapia combinada, incluindo doentes com desnutrição ou perda acentuada de condição física. É uma mudança importante precisamente porque não depende de tornar a quimioterapia ligeiramente diferente.
O entusiasmo, contudo, precisa de fronteiras. A aprovação é para o cancro do pâncreas. Não significa que alguém com cancro colorrectal e uma mutação KRAS possa simplesmente pedir daraxonrasib. A biologia das alterações RAS varia consoante o tumor e alguns cancros exigem combinações com outros medicamentos para que o bloqueio funcione. É precisamente por isso que a investigação está a avançar em várias direcções, desde fármacos específicos para mutações como G12C ou G12D até combinações destinadas a ultrapassar mecanismos de resistência. Há também vacinas contra KRAS e outras estratégias de engenharia imunitária em desenvolvimento. O primeiro sucesso numa via tão difícil pode valer mais pelo conhecimento que gera do que pelo número de meses de sobrevivência que acrescenta.
Para Portugal, a aprovação norte-americana não significa que o medicamento possa ser administrado já. O daraxonrasib ainda precisa de autorização europeia pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), embora desde 7 de julho esteja integrado no programa acelerado Cancer Medicines Pathfinder, criado para acelerar a avaliação de medicamentos contra o cancro quando existe uma necessidade médica elevada por satisfazer. Segundo informação avançada pelo Expresso, o especialista Carlos Carvalho estima que o tratamento possa chegar aos doentes portugueses em dois a três meses após os passos regulamentares necessários, ou, num cenário mais conservador, no início de 2027. A velocidade de chegada dependerá, naturalmente, da avaliação europeia e dos processos posteriores de acesso e financiamento em Portugal. A aprovação americana é, por isso, um marco científico importante, mas ainda não é uma receita disponível numa farmácia portuguesa.
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