A Apple decidiu passar da crítica para os tribunais. A empresa apresentou um processo contra a OpenAI onde a acusa de promover um esquema sistemático para obter segredos industriais relacionados com produtos ainda não anunciados. As alegações são graves e, se vierem a ser provadas, vão muito além da habitual disputa por talento que domina Silicon Valley. Segundo a Apple, candidatos a empregos na OpenAI eram incentivados a levar componentes físicos de equipamentos ainda inéditos para entrevistas, transformadas em sessões informais de demonstração. A empresa afirma ainda que alguns novos funcionários recebiam instruções sobre como contornar os procedimentos internos de segurança quando abandonavam a Apple.
O centro da ação judicial é Tang Yew Tan, antigo vice-presidente de design de produto da Apple, onde trabalhou durante quase três décadas em projetos como o iPhone e o Apple Watch, e atual responsável máximo pelo hardware da OpenAI. A Apple alega que Tan utilizou o conhecimento profundo que tinha sobre nomes de código internos, fornecedores e processos de desenvolvimento para pedir a candidatos informações confidenciais. O processo refere ainda a existência de uma lista de verificação criada com base em documentação interna da Apple, destinada a ajudar funcionários em saída a escapar aos mecanismos de segurança da empresa. Há também um caso concreto envolvendo um antigo colaborador que terá mantido um portátil da Apple depois de mudar para a OpenAI e explorado uma falha que lhe permitia continuar a aceder aos servidores internos.
A OpenAI respondeu da forma previsível: diz ter conduzido uma investigação interna e afirma não ter encontrado provas que sustentem as acusações. É uma resposta que dificilmente encerra o assunto. Uma empresa investigar-se a si própria e concluir que nada aconteceu dificilmente convence quem está de fora. Caberá agora ao tribunal determinar se existe fundamento para as alegações ou se estamos perante mais um episódio de uma guerra empresarial alimentada pela corrida à inteligência artificial. Vale também recordar que a OpenAI contratou centenas de antigos funcionários da Apple nos últimos anos, um movimento que, por si só, não é ilegal, mas que aumenta inevitavelmente a tensão entre as duas empresas.
Em paralelo, uma reportagem da Bloomberg revelou novos detalhes sobre o primeiro dispositivo físico da OpenAI. Ao contrário do que muitos esperavam, não será um telemóvel. A ideia passa por um altifalante inteligente portátil, sem ecrã, concebido para funcionar como um companheiro de IA dentro de casa. O equipamento deverá controlar dispositivos domésticos, responder a mensagens, reproduzir conteúdos multimédia e conversar através de uma versão avançada do modo de voz do ChatGPT. Terá ainda câmaras, sensores e componentes mecânicos capazes de alterar fisicamente a posição do dispositivo para tornar as interações mais “humanas”. A OpenAI estará igualmente a desenvolver outros projetos de hardware, incluindo uma colaboração com Jony Ive, antigo diretor de design da Apple.
O conceito, porém, levanta dúvidas difíceis de ignorar. O mercado já mostrou que criar uma alternativa ao smartphone é muito mais complicado do que parece. Produtos recentes, como o Humane AI Pin ou o Rabbit R1, provaram que uma boa ideia no papel não chega quando o telemóvel continua a concentrar todas as funções essenciais do dia a dia. Acrescentar câmaras, sensores permanentes e movimentos robóticos a um dispositivo pensado para estar dentro de casa também levanta questões de privacidade que dificilmente passarão despercebidas. Antes de convencer os consumidores, a OpenAI terá primeiro de explicar porque é que alguém precisa deste aparelho quando já tem um telemóvel no bolso.
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