O iOS 27 já traz no código uma peça que a Apple fez de conta que não existe na keynote da WWDC: um sistema de Extensões para IA que, na prática, transforma a Siri num hub onde se pode escolher entre ChatGPT, Claude e Gemini para responder a pedidos. Há painel de definições, há secção preparada na App Store, tudo construído e desligado no backend, como detalhou Mark Gurman na Bloomberg. Oficialmente, silêncio absoluto.
A ideia não é nova em rumores. Desde março que se fala em Extensões a substituir o acordo bilateral com a OpenAI por um modelo mais aberto, onde qualquer fornecedor de IA que cumpra os requisitos poderia entrar. Em maio, a TechCrunch descrevia isto como um “choose your own adventure” de modelos de IA. Quando chegou a WWDC, a questão parecia ser só quanto tempo de palco teria a coisa. Teve zero.
No ecrã, a Apple preferiu um único protagonista: Siri AI, o assistente redesenhado em cima de um modelo Gemini de 1,2 biliões de parâmetros, a correr em GPUs Nvidia Blackwell no Google Cloud. Houve app dedicada da Siri, contexto pessoal, três camadas de privacidade. Tudo muito controlado, muito Apple. Anunciar ao mesmo tempo que a Siri vai ser uma espécie de metro onde se escolhe a linha OpenAI, Anthropic ou Google estragava a narrativa do “olha para a nossa IA nova”. A marca quer primeiro vender a ideia de que tem cérebro próprio, só depois admitir que empresta neurónios de terceiros.
Depois entra a União Europeia, sempre útil para estragar planos de palco. Na mesma semana, a Apple confirmou que a Siri AI não chega à União Europeia no lançamento, por causa do braço-de-ferro com Bruxelas em torno do Digital Markets Act (DMA). A Comissão Europeia rejeitou o tal modelo de Trusted System Agent, em que assistentes rivais teriam acesso às capacidades da Siri sem ver dados sensíveis do aparelho. É difícil, para não dizer incoerente, dizer em Bruxelas que abrir a Siri a terceiros é um risco inaceitável e, na mesma altura, mostrar ao mundo um framework que faz exatamente isso, mas para modelos de IA generativa.
Há ainda o ruído legal. A OpenAI está a preparar possíveis ações contra a Apple por causa do acordo de 2024 em torno do ChatGPT, segundo a Bloomberg. A leitura em São Francisco é simples: prometeram-lhes uma torneira de subscrições que valia milhares de milhões e depois empurraram a integração para o rodapé da interface. Agora, anunciar um sistema em que a OpenAI passa de parceira privilegiada a mais um fornecedor numa lista que inclui Anthropic e Google seria munição perfeita para os advogados argumentarem quebra de expectativas ou até de contrato. A Apple tem pouco interesse em dar-lhes mais slides para anexar ao processo.
No meio disto, para quem está em Portugal ou noutro país da UE, a mensagem real é crua: o futuro “modular” da Siri, com ChatGPT ao lado de Gemini ou Claude, existe no código mas vive numa espécie de limbo político e jurídico. A Apple quer mostrar que tem IA própria, não quer irritar ainda mais a Comissão, e tenta atravessar um litígio com a OpenAI sem abrir novas frentes. O resultado é típico Apple: a arquitetura está lá, cuidadosamente desenhada, mas o interruptor fica escondido até a correlação de forças lhe ser favorável. Para o utilizador europeu, o risco é ver esta promessa de Siri aberta transformar-se em mais um daqueles projectos que a empresa finge que nunca anunciou.
Fonte: The Next Web
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